Sinopse

A história se passa numa cidadezinha da Itália, chamada Senilla. Uma cidade presa entre montanhas e o mar, com nenhuma ligação com outra cidade, a não ser andando três horas inteiras de carro ou navio. Lá, encontra-se o melhor hospital da Itália para o tratamento de doenças raras, chamada Síndrome de Turner e Síndrome de Noonan. E é com a viagem de Cássio e sua mãe para lá, em busca de um tratamento, que se inicia a história emocionante de O sacerdote.


domingo, 23 de dezembro de 2012

Normal passar o recreio sozinho

Primeira Temporada - episódio 5

    Não havia nada mais sem graça que primeiro dia de aula. Os antigos amigos rindo e conversando sobre seus finais de semana perfeitos, os tímidos no canto na frente da sala já começando a se prepararem para começar a estudar e Cássio, o garoto não tímido, mas que ficava sozinho no fim da sala remoendo seus pensamentos em voltar logo para casa para cuidar de sua mãe doente e rezando nos horários vagos.
    Cássio pensava ser o único solitário. Até a aula começar.
__ Bom dia, alunos queridos. Como foram os finais de semana de vocês? Aproveitaram bastante?
    Naquele momento, enquanto a professora que parecia ser a mais querida dos alunos pronunciava palavras gentis entrava pela porta da sala, já encostada pela professora, Beatrice.
    Com um olhar árduo, Beatrice procurou um lugar para se sentar, e para infortúnio de Cássio, ela se sentou ao seu lado, no fundo da sala.
    Eles passaram boas aulas se entreolhando assustados. Beatrice parecia odiar todos os professores que entravam. Ela os odiava mesmo. E eles a odiavam também.
    Cássio ficou olhando distraído num intervalo para Beatrice, resolvendo assim chamá-la de vampira.
    As cores que se contrastavam de seus cabelos negros e de seu batom vermelho carmesim na boca. Uma bela vampira de filmes antigos. Bela? Ok, vamos deixar o bela de lado. Mas ela era bela, porém estranha também.
    Ele sabia que Beatrice, a garota vampira, de acordo com ele, também não conversava com ninguém, mas ele não a considerava uma pessoa que merecesse amizades.
    No recreio, Cássio tentou puxar papo com Gabriel, um sacerdote da igreja em que ele estava "alojado", mas Gabriel já tinha seus amigos e nem deu muito interesse a Cássio.
    Cássio foi lanchar sozinho, no canto próximo do jardim das freiras da escola.
    Foi só ver Beatrice passar na sua frente que ele estremeceu.
    Como? Como meu Deus? Como deixaram uma vampirinha do inferno como essa estudar nessa escola tão católica e conhecida como esta?
    Frustrado, Cássio continuou a comer seu sanduíche de pão de forma com patê de frango sozinho, isolado, no fundo da escola.
    Logo que bateu o sinal, Cássio correu para a sala.
    Não havia motivo para a correria, mas era melhor ele chegar logo antes que cruzasse sozinho com Beatrice no meio do corredor e se espremessem juntos para entrar na sala.
    Isso seria pavoroso. Beatrice para Cássio era mais do que uma vampirinha do inferno ou um monstro.
    Ela era uma tentação.
    Não uma tentação sexual ou de blá, blá, blá, afinal, ele só a conhecia a duas horas ou três! Era mais uma tentação do inferno sobre ele. E ele não tinha muitas boas experiências com essas tentações...
                                   
    Ele era vulnerável.
    Ainda é.
    Acreditava em qualquer um, em qualquer palavra doce, mesmo que falsa. Ele era um bebê adulto e ingênuo.
    Num sábado qualquer, na frente da igreja na qual era sacerdote na Roma, Cássio estava perambulando, sem rumo, após ser enganado.
    Uma garota, a primeira garota. A primeira! O enganou, o levou para o mal caminho e agora ele estava à beira do abismo, sem saber como pôde confiar nela.
    Por isso ele fugia de qualquer garota que parecesse "errada". E Beatrice com toda certeza era a errada. A mais errada de todas. Principalmente para Cássio.
                                 
    Eles se entreolharam mais um pouco durante as últimas aulas até o sinal tocar.
    Cássio não sabia se corria para ser o primeiro a sair da sala e não cruzar com Beatrice ou se ele esperaria até ela sair.
    Para ele, cruzar com ela seria como se ele tivesse um minuto no inferno de graça.
    Todos já haviam saído da sala até só ficarem eles dois lá dentro.
    Beatrice paralisou ao perceber o aluno novo parado a olhando aterrorizado já com a mochila nas costas. Pensou bem até perceber uma pulseira com uma cruz no braço de Cássio.
    Ah, não, mas um religioso nessa escola religiosa. Amante de Deus, do céu, que acredita em todas essas baboseiras, pensou Beatrice.
__ Vai ficar mesmo me olhando assim, novato? __ ela parou de braços cruzados na frente de Cássio. Sua mochila pendurada em um só de seus braços flácidos.
    Ele não fez nada além de arregalar os olhos e pensar: Era melhor eu ter saído antes. Burro, burro, burro. Você mesmo se pôs a ter esse encontro horripilante com ela.
__ Bu! __ gritou Beatrice fazendo Cássio, distraído em seus pensamentos arregalar ainda mais os olhos e dar um passo atrás e tropeçar na cadeira.
__ Bem feito, quem mandou ficar me espionando no final da aula.
    Beatrice deu de ombros e saiu da sala.
    Cássio respirou fundo e  logo após Beatrice passar pela porta ele também passou, atrás dela.
__ Vai me seguir?
__ Não, eu só sai da sala atrás de você, algum problema?
    Agora quem ficou surpresa foi Beatrice. Ela cruzou os braços novamente e fez cara de desinteressada, mas na verdade ela gostou da atitude de Cássio.
    Quando ela viu Samuel na moto do outro lado do portão ela saiu correndo da vergonha que tinha passado e subiu correndo na garoupa da moto dele e mandou-o acelerar.
                               
    Chegando no quartinho dele e de sua mãe, Cássio a vê acordada, de cara bruta olhando fixamente nos olhos dele.
    Na noite passada Cássio não fora buscar a sua mãe. Ele foi ao quarto do padre Fernando e lhe deu o dinheiro dizendo: Vá buscar minha mãe, eu simplesmente não consigo.
    Então quando o padre Fernando chegou com sua mãe ele estava dormindo.
    Ainda deitada na cama, a senhora Brumma começa a brigar com ele.
__ Eu confiei em você, Cássio!
    Ele largou a mochila ao pé de sua cama e se sentou lá, virado para a sua mãe que com todas as forças tentava se levantar.
__ Desculpa mãe, mas depois de tudo aquilo que você me disse eu realmente não me senti bem...
    Quando ela finalmente sentou, seus olhos se arregalaram e ela se pôs a chorar.
    Um destruiu o outro. Cada um do seu jeito.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Finais de domingo tumultuados

Primeira Temporada - episódio 4

__ Você por acaso a beijou? Você não devia! Isso eu não posso desfazer de jeito nenhum! __ madame Soprano gritava tentando fazer silêncio para a filha não ouvir. Era difícil...
__ Não, eu não a beijei! Mas... tá difícil... Madame Soprano, eu acho que seu feitiço não está mais funcionando. Quando eu olho naqueles olhos negros...
__ Obrigada por me avisar! Preciso urgente preparar outra poção. Já foi para casa? Se sim volte correndo. Preciso preparar um pra te proteger e o de Beatrice.
__ Não, não fui para casa ainda... to aqui embaixo. Vem logo que eu já estou abrindo o portão.
__ Estou indo.
    Madame Soprano deixou a filha aos berros tentando pegar o brinquedo da mão de Tales e desceu as escadas correndo sem nem se explicar.
    Beatrice nem se preocupou e até meio que se sentiu melhor sozinha.
    Ao atravessar a rua, madame Soprano teve uma visão. Era uma garota... uma garota... uma garota voltando. Voltando para Senilla. E em busca de Beatrice.
    O coração de madame Soprano se apertou. Joana não a poderia levá-la antes do tempo.
__ Eu vou ter que preparar três feitiços. Um para você se proteger e não ter mais desejos por Beatrice. Outro para afastar Joana para que ela não volte antes do tempo e o de Beatrice.
    Caterina chegou atarefada e falando tudo que precisava em seu espaço de trabalho. Entrou agachada por causa dos lenços pendurados e logo que deu de cara com Bernardo começou a pedir os ingredientes.
__ Orégano, que atrasa o tempo...
__ Espera! Quanto tempo ela tem antes de Joana vir? __ Bernardo não deixou Caterina terminar.
__ Não sei... minha visão foi meio turva... acho que só temos um ano. O que significa que é muito pouco tempo.
__ É,... eu sei que um ano é pouco tempo.
    Bernardo a passou o orégano e ela continuou a lhe pedir ingredientes.
                               
    Cássio já não aguentava mais ficar virado para a parede, deitado na cama e jogando sua bolinha quica.
    Sua mãe estava demorando demais, e pelo o que ele pensava, ela seria a única a ser consultada. Será que já iriam começar os tratamentos? Será que ela... Não, melhor esquecer.
    Ele continuou ali, tentando não se preocupar. Mas quando seu celular vibrou no seu bolso ele deu um pulo, sentou na cama correndo e atendeu.
__ Alô.
    Sua voz estava ofegante.
__ Amor, venha me buscar, meu dinheiro está embaixo do travesseiro. Pegue um táxi.
__ Você... você está bem?
    Ela demorou um pouco a responder, o que o deixou com medo, muito medo.
__ Eu tomei um remédio que me deixou sonolenta, mas além disso eu estou bem.
    Um alívio tomou conta tanto da face de Cássio, quanto de seu coração.
__ Eu... eu vou chamar o padre Fernando pra ir comigo, ok?
    Ela inspirou fundo do outro lado da linha.
__ Eu não quero que ele me veja nessa situação, não quero que ninguém me veja assim, nem você... mas o que eu posso fazer? __ ele podia ouvi-la soluçar do outro lado __ Você é quase obrigado, Cassinho. Agora eu percebo que ter você não foi realmente um milagre de Deus. Nós,... nós sofremos muito juntos. Minhas doenças não afetaram só a mim. Cássio, me ouça, eu te amo muito, mas vou ter que te deixar cedo, tenha consciência disso. Eu não verei você se formar, se casar, me dar netos lindos... nada, eu não verei nada, infelizmente.
    Ela chorou, muito. Parecia que Cássio até podia sentir as gotas caindo do rosto dela e escorrendo até o queixo.
    Ele também chorou, não tinha como segurar. Quando ele viu que a doença de sua mãe chegou a ponto de ter que fazer um tratamento forte ele soube que ela não duraria muito.
    Cássio não aguentou falar mais nada. Parecia que sua voz havia congelado na garganta. Lhe faltou tudo: voz, choro, ação e amor.
    Ele estava em estado de choque. Não sabia o que fazer, como agir, como lidar com aquilo.
    Perdeu a casa, não tinha teto, só a mãe. Um bem tão valioso mas que só duraria mais... um ano? Pensando com certa positividade excessiva.
    Ele se cegou. De algum modo e com alguma razão ele queria se isolar. Não queria ir nem buscar a mãe. Preferia dormir até tudo isso acabar.
    Um vento frio soprou pelo seu braço e a única coisa que ele conseguiu dizer sozinho no quarto foi:
__ Elas me afetaram também. Muito, mãe.
                               
    Após horas preparando poções, Bernardo e Caterina saíram do "depósito" onde Caterina trabalhava e se despediram.
__ Eu vou tomar isso assim que chegar em casa. Valeu, madame Soprano.
__ Tome tudo e depois faça o que eu te falei. Mas não se esqueça: tem que fazer exatamente como eu falei, senão não funciona, irá falhar.
    Caterina chegou em casa exausta, eram quase seis horas e o dia praticamente não acabava nunca.
    Beatrice ao ver a mãe chegar aproveitou para ligar para Samuel e combinarem de ir no beco para ela relaxar um pouco.
    Passar o dia inteiro cuidando do irmão não parecia uma coisa muito legal.
    Após uma hora depois de ligar para Samuel, ele chega de moto lá embaixo e força o motor. Esse era o jeito dele de dizer que chegou.
    Beatrice desceu os três andares correndo. Chegou, deu um beijo na bochecha de Samuel, subiu na garoupa da moto e eles partiram.
    Chegaram no beco de mãos dadas, ela encostando a cabeça em seu ombro, ele cumprimentando os amigos até de repente Beatrice relembrar de Heitor, a levando na sua primeira vez naquele beco...
    Ele nunca deixaria seus pensamentos, seu coração...
    Ela jamais o esqueceria. Seu segundo e intenso amor.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Orgulho de ser filha de mítica

Primeira Temporada - episódio 3

    Era domingo e Beatrice estava acordando era umas duas horas da tarde. A balada de ontem com o Samuel não tinha dado um bom resultado.
    Assim que ela despertou, levantou correndo da cama e foi ver o que o irmão já havia aprontado.
    Felizmente, sua mãe não havia ido trabalhar hoje.
__ Ué, não foi hoje? __ pergunta Bea intrigada. Que droga... não vou aguentar ficar o dia todo na vigia da mamãe, tenho que ligar para o Bernardo ou para o Samuel.
__ Não, hoje não, eu... quero conversar com você.
    Bea arregalou os olhos. Ai vem...
__ Ok, então, mas nada de papinho de céu, inferno, anjos, demônios, e toda a turminha. Você sabe que eu acredito que o céu e o inferno estão na terra.
    Madame Soprano, como gostava de ser chamada a senhora Caterina, saiu da cozinha e seguiu para a sala, onde Beatrice estava. A cozinha era americana, o que as permitiam conversar de um cômodo ao outro.
__ Bea... tem um pouco disso na conversa, mas é mais sobre a sua irmã.
    Ai não... isso Bea não aguentava conversar desde que sua irmã foi embora. Sussurrando e meio que com raiva, Beatrice disse:
__ O que tem ela?
__ Ela? O que tem ela? __ Caterina perguntou com sarcasmo __ Você vai mesmo ir morar com ela?
__ Olha mãe... ela nem terminou os estudos ainda. Eu nem sei... nem sei se ela vai vir mesmo me buscar.
__ Você sabe que ela vai terminar daqui a dois anos. Se ela conseguir um bom estágio ela... ela poderá tirar você de mim antes do tempo.
__ Tempo de que?
    Caterina arregalou os olhos. Ela havia falado demais.
__ De... de nada, Bea. Bom, eu acho que acabamos a nossa conversa pro aqui. Se quiser, saia com o seu namorado ou, sei lá, liga para o Bernardo para conversarem na escadaria do prédio só não demore para voltar para casa.
    Até parecia que a senhora Soprano se preocupava com a hora em que Beatrice chegava em casa.
__ Ok, ok.
    Bea voltou para o seu quarto e ligou para Bernardo.
__ Fala, Bea... O que você quer?
    Ele atendeu rápido, mas com voz de sono. Estranho.
__ Tá dormindo? Melhor, estava dormindo?
__ Não, só... só pensei que não fosse me ligar é que... ah, nada, diz ai o que você quer.
__ Estranho, né, mas tudo bem. Eu só queria conversar, sei lá, soltar as coisas que estão entaladas na minha garganta, sabe. Eu penso às vezes de falar tudo para o Samuel só que ele... ele não me conhece tanto quanto você e a Joana.
    Bea tremia ao falar ou até mesmo lembrar da irmã.
__ O que mais você tem a me dizer, Bea? Eu já... eu já sei tudo sobre você.
__ Eu sei que você sabe... Eu só queria desabafar um pouco.
__ Ok, to indo para ai. Me espera no portão.
    Bea trocou rápido de blusa da vermelho sangue por uma azul marinho e colocou uma saia curta jeans e uma sandália gladiadora preta com spikes.
    Ela esperou um tempo... pensando em muitas coisas para contar a Bernardo. Até mesmo o evento quentinho pré-saído do forno.
    Ele chegou e ela derreteu. Ela ainda não entendia como podia gostar tanto dele, se nem mesmo haviam se beijado.
    Beatrice então começou a filosofar na sua cachola. Ela amava só quem não a queria...
    Ele se sentou na escadaria do lado de Beatrice.
__ Eu preferia você sem esses piercings... __ quase que num sussurro Bernardo a confidenciou um desejo.
__ Você era bem mais bonita e tratada antes deles... __ continuou ele fazendo Beatrice se arrepiar. Ela nunca havia imaginado isso.
    Beatrice então se calou. Começou a pensar e pensar coisas cada vez mais loucas em sua mente. O quanto aquilo era surpreendente, o quanto aquilo era o que ela sempre esperou ouvir. Bernardo, o primeiro amor de sua vida disse que ela era bonita. Mas, para o desgosto de Beatrice,... ela não era mais.
__ Não adianta ficar no silêncio. Eu não sou que nem a sua mãe para saber o que você está pensando e que não quer dizer.
__ Eu não acredito nessas coisas. Você sabe __ Bea bufou e encostou a cabeça no ombro de Bernardo.
__ Mas elas existem, e eu sei que você nunca acreditou, mas você ficou calada e pensativa ai... o que era?
    Nada. Só que eu te amo demais e amei também saber que você me achava bonita.
__ Eu já acreditei sim. Na época em que minha mãe conseguia fazer a minha cabeça. Agora essa época já passou e você sabe muito bem disso.
    Bernardo gelou.
__ Tá, mas você vai tirar os piercings?
    Dessa vez, quem gelou foi Beatrice. Ela colocou alguns daqueles piercings por causa da falta de complacência de Bernardo. Por causa do amor não correspondido. Uns cinco eram culpa dele. O resto culpa do Heitor... Enfim,... e as marcas nos braços? Também era bem dividida entre os dois, mas sua irmã também a fizera deixar algumas por ali.
__ Vou ficar com marcas...
__ Mas as marcas não vão ser tão eternas quanto as que você carrega nos braços.
    Ele levantou um braço de Beatrice e virou o pulso para vê-lo melhor a fazendo ficar nervosa e envergonhada logo o puxando.
__ Viu... e você nem gosta delas. Por que você as faz então? Me diga... eu quero saber.
    Houve um brilho no olhar de Beatrice. Ai estava a complacência que ela sempre esperou de Bernardo. A preocupação.
__ Por sua causa. E por causa da minha irmã. E por causa de tudo que me faz se sentir mal.
    Ela se levantou e subiu os degraus.
__ Até depois, Bê.
    Confiante e decidida, Bea iria partir a procura de outro. Ela era assim. Batava gostar dela ou se preocupar um pouco que ela "fugia", mesmo sabendo que nunca mais amaria outro assim...
    Bernardo ficou a ver navios. Ele... ela estava... Não! Ele não podia estar... Mas seu coração estava confuso, como seus pensamentos.
    Ele queria tocá-la, beijá-la... Não! Não! Não!
    Ele não podia beijá-la... Ele precisava urgentemente conversar com a madame Soprano.
    Ligou para ela. Madame Soprano estava tão ocupada tentando acalmar Tales, o irmão mais novo de Be, que quem acabou atendendo o telefone foi Beatrice. Ele ainda estava lá embaixo, sem rumo, precisando de umas palavras inteligentes.
__ Fala... __ Bea nem sabia quem era do outro lado da linha.
__ É... __ Bernardo tentou fazer uma voz um pouco diferente, para Bea não desconfiar de nada __ a madame Soprano está?
    Ele pode ouvir Beatrice levando o telefone para a mãe, dizendo: Mãe, cliente, deixa o Tales comigo.
    Ela queria mesmo se livrar da vigilância da mãe naquele domingo.
__ Olá, quer um olhar mítico no seu dia?
__ Madame Soprano, sou eu... Bernardo. Precisamos conversar... acho que... estou me apaixonando por Beatrice.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Nome simples para um lugar sensacional

Primeira Temporada - episódio 2

    Era domingo. Cássio acordou devagarinho, olhou em volta e levou um susto. Ele havia dormido nos degraus da igreja que levavam até o altar.
    Olhou o relógio e deu um pulo para seguir em fuga até seu quarto. Eram exatamente cinco e meia e como o padre havia o falado a poucas horas sobre a missa das seis horas da manhã... com certeza começariam a arrumá-la mais ou menos essa hora.
    Perto do corredor, Cássio, enquanto corria distraído, nem percebe a presença do padre Ícaro, um padre conservador e católico fervoroso que passava levando a âmbula nas duas mãos e com a sua túnica quase arrastando no chão.
    Infelizmente, para rejeição de Cássio por toda a igreja, ele pisa na túnica do padre Ícaro, fazendo-o deixar cair toda a hóstia que havia dentro da âmbula.
    Padre Ícaro olha raivosamente para Cássio, percebendo bem nas suas olheiras gigantescas, no seu cabelo bagunçado, nas suas roupas lameadas e no seu rosto infeliz, logo depois olhando de volta para o chão e lamentando sofridamente a perda de todas aquelas hóstias.
__ Esse garoto... não deveria estar aqui.
    Cássio engoliu em seco, e, ainda em pé, começou a lamentar também o ocorrido.
__ Não era o padre Fernando que iria fazer a missa das seis?
    Perguntou Cássio enquanto se abaixava para ajudar a catar todas as hóstias perdidas para depois tacá-las, infelizmente, no lixo.
__ Padre Fernando foi os receber ontem de madrugada, ele está dormindo ainda, farei a missa por ele.
__ Ah, sim... __ responde Cássio levantando a cabeça agilmente e logo depois voltando a juntar as hóstias.
    Chega então uma freira, Sílvia, com a vassoura e a pá.
__ Sílvia, deixe o rapaz cumprir seus deveres e aprender a não correr no corredor e vá buscar mais hóstias... __ sem nem deixar Sílvia sair de lá, padre Ícaro continuou __ Ah, leve também a âmbula e limpe-a.
    Cássio achou de certo modo incorreto, freiras não são escravas, mas ele não podia fazer nada além de seu "dever" de acordo com o padre Ícaro.
    Após juntar todas as hóstias em cima da pá, Cássio pode enfim ver o céu pegar uma cor diferente de azul marinho, passou para um cinza médio, podendo ver também um pátio, pelo feixe de vidro que havia em torno de todo o corredor.
    Ele seguiu em direção a uma porta no meio do corredor e que tinha do lado uma lixeira. Tacou todas as hóstias lá dentro e seguiu pelo corredor até chegar ao seu quarto. Viu sua mãe ainda dormindo e então resolveu tomar banho no banheiro de lá mesmo e depois seguir para ver a missa, afinal, ele havia acordado bem cedo, e... pensando bem... ainda bem que ele havia acordado cedo.
                                       
    Após a missa, Cássio saiu da igreja e resolveu ir ver como era a cidade. Saiu com apenas uns trocados no bolso da bermuda jeans para talvez tomar um café com creme e comer um donuts em qualquer cafeteria.
    Ele não foi muito longe. Acabou parando lá perto e tomando um suco de laranja numa padaria e comendo um sanduíche de ciabatta com queijo e goiabada.
    Andando sem rumo pelas ruas, chegando perto da estrada que o levara para lá, Cássio viu uma espécie de trilha, muito perto de uma porção de cangas esticadas no chão repletas de comidas e de gente em volta.
    Ele resolveu subir a trilha.
    Enquanto subia, ele viu um casalzinho aos beijos no meio da trilha. Ela era loira e ele meio moreno... um loiro acinzentado.
    Chegando no final da trilha, Cássio até se emociona com a vista... como a cidade era linda e perfeita dali de cima.
    Lá embaixo estava escrito que o nome daquele local era A pedra.
    Um local tão lindo, tão agradável, tão aconchegante... Novamente... Cássio acabaria gostando de morar lá...
    Ele sentou na ponta da pedra e se deparou sozinho. Começou a tacar pedrinhas e ouvi-las caindo devagarinho de lá de cima.
    Pensou, pensou e pensou sobre a sua vida e sobre seus colegas que deixou para trás até se pegar lembrando do dia em que contou a seu único melhor amigo que iria se mudar.
                                   
__ Alexandre! __ Cássio gritou e esperou que o amigo o ouvisse do outro lado do pátio.
    A escola estava lotada nesse dia pois todos as salas lancharam juntas.
__ Alexandre! Alexandre! Alexandre!
    Cássio ficou sem ar e se apoiou no ombro de um qualquer que nem ligou. Logo depois que ele recuperou o fôlego saiu novamente em disparada atrás do amigo. Eles se perderam na lanchonete da escola pois Cássio tinha ido antes ao banheiro e ficou mais para trás na fila.
    Ao alcançar Alexandre, Cássio apoiou dessa vez as mãos nos joelhos e esperou que Alexandre virasse para trás.
__ Ah, oi Cássio. Tava me chamando?
    Cássio ficou furioso. Levantou a cabeça e cruzou os braços.
__ Se eu estava te chamando?! Eu estava te berrando, Alex! Você ouviu e nem deu bola, né!!
    Alexandre riu e tentou acalmar o amigo,colocando a mão em seu ombro.
__ Fala ai o que te manda.
    Cássio se aproximou do amigo e também colocou a mão em seu ombro.
__ Eu... eu vou me mudar, cara. Pra bem longe.
    Alexandre arregalou os olhos e tirou a mão do ombro do amigo, decepcionado.
__ Quando? __ foi a única coisa que Alexandre consegui pronunciar naquela hora. O tumulto do recreio pareceu até se silenciar.
__ Sábado, agora.
__ Depois de amanhã?!
__ É...
    Cássio estava até se sentindo mal. Ele não queria se mudar de jeito nenhum!
__ Cara... eu... eu vou sentir saudade...
                                 
    De repente Cássio percebe que está ficando tarde, um pouco depois da hora do almoço, então resolve correr para a igreja, sua mãe estaria possessa.
    Chegando lá, ele percebe que sua mãe está arrumando uma bolsa para sair.
__ Onde você estava, Cássio? __ pergunta Alícia ao se virar e ver o filho. A voz fraca, falhando e a aparência cansada.
__ Mãe, eu... eu fui ver a cidade, conhecê-la melhor...
__ Ah, sim. Querido, estou satisfeita, muito obrigada por querer conhecer a cidade. Eu já chamei um táxi. Eu marquei uma consulta hoje. Eu sei que é domingo, mas ele aceitou me consultar e me dar uns remédios para esse meu cansaço.
__ Claro, mãe, é até bom que ele já queira te consultar. Vou ficar aqui tá bom? Quero conhecer melhor os padres, as freiras,... todo mundo, ok?
    Alícia abraçou forte o filho.
__ Eu te amo, Cassinho.
    Cássio poderia bufar, gritar, chorar, mas não, mesmo odiando o apelido, Cássio amava a mãe, e sabia de sua saúde fraca, o melhor era amá-la enquanto ela ainda estivesse viva.
    Ele a retribuiu o abraço.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Não, Turner, não faça isso comigo

Primeira Temporada - episódio 1

__ Maldito Síndrome de Turner! __ gritava Cássio no seu quarto enquanto arrumava sua mochila e suas malas vorazmente.
__ Meu amor...
    Sua mãe aparece em seu quarto, caída e sem forças direito.
__ Você sabe que eu não queria ter essa doença... já foi um milagre ter você, basta o quanto eu sofri achando que você não ia sobreviver... por favor, pare de reclamar, meu amor. Lá deve ser legal também.
__ Mãe, eu não me importo com o quanto você me quis, eu só... eu só não queria deixar aqui! Tem tantas outras cidades próximas que poderiam ter esse centro de tratamento, mas não! É tão longe, tão longe e tão esquecida que nem de avião nós vamos poder ir!
    Sua mãe sai do quarto e bate a porta com força. Ela não tinha mais papas na língua para continuar gritando com o filho.
__ Deixar tudo... Eu já não tenho quase nada... amigos, avôs, avós, tios, tias... Por quê, senhor? Por quê está fazendo isso comigo?
    Cássio ajoelhou-se no chão em relutância.
__ Poderia ser Milão, Nápoles, Génova, Florença... até Veneza ou Verona, mas não... tinha que ser uma cidade que nem deve ter 10.000 habitantes, que droga! 
    A doença de sua mãe era tudo o que Cássio não queria que ela tivesse. Além dela não ser bonita, por ter o pescoço muito cheio de pele, fazendo-a parecer sem queixo, ela ainda não tinha peitos e era baixa... Com toda certeza que ele a amava, mas... gostaria que ela fosse... de certa forma... normal.
__ Eu não quero sair de Roma!! __ exclamou ele em alto e bom som para sua mãe ouvir.
    Ele sabia que era pecado desrespeitar aos pais, mas naquele momento de tanta raiva, ele não aguentou.
    Quando acabou de arrumar a mala, Cássio deitou-se na cama, esperando um milagre.
    Ele rezou quantos pai nossos ele pode e quantas ave marias conseguiu até sua mãe bater de novo na sua porta.
__ Filho, querido. Os rapazes da mudança chegaram. Já colocou as coisas na caixa?
    Ele havia esquecido de fazer isso.
    Saiu correndo pelo quarto pegando tudo e tacando nas caixas vazias que sua mãe havia deixado ali desde ontem de noite. Aproveitou para passar na porta e trancá-la para proibir a entrada de sua mãe.
__ Mãe, deixa as minhas coisas por último... estou, é... trocando de roupa __ mentiu.
    Enquanto Cássio fazia tudo às pressas, se pegou pensando... "Ué, por que eu estou arrumando tudo se antes eu não queria viajar? Antes não, eu ainda não quero."
    Mas quando viu tudo já estava nas caixas.
    Os móveis continuariam ali, aliás, eles eram do apartamento, foram alugados junto com ele.
__ Anda, filho...
    Cássio abriu a porta numa euforia só. Correu muito ao arrumar as coisas dentro das caixas.
__ Muito bem, filho. __ disse a senhora Brumma ao olhar para dentro do quarto e só ver as caixas lotadas no chão e os móveis limpos, sem nada.
    E eles seguiram até a rua, após descer cinco andares com a mochila pesada no colo, Cássio ficou cansado.
    A senhora Brumma pegou a chave do bolso e deu para o senhor Filgari, que levaria eles até a cidade nova, pois a senhora Brumma não tinha forças para dirigir tantas horas.
    O senhor Filgari era um dos vizinhos deles, que morava no sétimo andar.
__ Então, vocês estão prontos?
__ Sim senhor Filgari, e... muito obrigada mesmo.
__ É, valeu senhor Filgari __ diz Cássio mesmo não muito agradecido por ser forçado a viajar.
    Eles seguiram viajem conversando e ouvindo rádio por horas e horas.
__ É... qual o nome da sua doença mesmo, senhora Brumma?
__ Síndrome de Turner.
   Maldito Síndrome de Turner, pensou Cássio.
__ Mas que doença mais esquisita essa, hein, Alícia.
__ Sim, Luciano, eu sei o quanto eu sofri preconceito por causa dela. Não conseguiam acreditar que eu pudesse ter o Cassinho...
    Luciano ri e olha para Cássio através do retrovisor. Ele estava de braços cruzados, agachado e com a cara grudada na janela.
    Cássio odiava ser chamado de Cassinho.
    Luciano Filgari deveria ter uns trinta e seis anos e sempre estava dando em cima da mãe de Cássio. Ele odiava isso e se sentia mal no meio dos dois.
                                     
    Finalmente, após horas e horas na estrada, eles chegam na cidade umas duas e pouco da madrugada. Assim que Cássio sai do carro, passa uns motoqueiros estranhos perto da possa de lama e respingam tudo na roupa dele.
__ Malditos! __ diz Cássio sem conseguir se controlar, logo depois lembrando de se perdoar __ Desculpa senhor, eu não fiz por mal, mas acredito que aqueles desalmados fizeram isso por mal!
    Entrando na igreja, a qual eles ficariam "hospedados" de graça enquanto Alícia tratava sua doença, vem um padre recebê-los.
__ Olá, meu nome é Fernando e eu sou um dos padres dessa igreja. Sejam bem-vindos e espero que a instalação de vocês seja rápida, pois eu tenho que dormir cedo, amanhã eu faço a missa das seis.
__ Oh, sim, claro, mil perdões __ diz a senhora Brumma.
    O senhor Filgari e Cássio começam a tirar as caixas do caminhão de mudanças que os seguiram a viagem toda. Os homens do caminhão também retiraram algumas caixas. Como não tinham móveis nenhum com eles, esse processo demorou pouco.
    Cássio e Luciano segurando as caixas levaram tudo para dentro da igreja, para o quartinho pequeno que dividiriam.
__ Nossa... que...
    Cássio nem deixou Luciano terminar.
__ Pequeno, não?
    Luciano riu e assentiu com a cabeça, logo depois mudando de cara e encarando seriamente Cássio, segurando em seu ombro.
__ Olha... tome conta da sua mãe, ok? Ela deixou a família, os amigos, o marido só por você. Por que ninguém acreditava que você pudesse nascer, e pior, acreditavam que você pudesse matar a sua mãe.
    Cássio se sentiu comovido. Era realmente verdade que sua mãe largou tudo por ele e que a sua doença só piorou por causa dele. Ele deixou uma lágrima cair mais logo limpou, sem deixar Fernando perceber.
__ Eu vou tomar conta dela. Pode ter certeza, Luciano.
    Cássio não conseguia tratá-lo como um tio ou apenas chamá-lo de "senhor". Ele era muito novo para receber esse tipo de tratamento.
    Alícia entrou no quarto e vendo Luciano e Cássio conversando, resolveu ouvir, mas ela chegou tarde, a conversa dos dois já havia terminado.
__ Tchau, Alícia __ disse Luciano a abraçando.
__ Adeus... Luciano__ Alícia retribui o abraço e, os dois, comovidos com a separação, choram.
    Cássio entra num colapso nervoso, ele odiava Luciano dando em cima da sua mãe, mas desta vez ele deixou, afinal, ele não poderia protegê-la para sempre.
    Luciano Filgari foi embora e Alícia começou a abrir as caixas e tirar uns lençóis de dentro.
__ Vamos, Cássio, me ajude a tirar esses lençóis daqui.
    Cássio se abaixou ao lado da mãe e começou a tirar uns lençóis.
__ Está bom, agora escolha uma cama e comece a forrá-la com os seus lençóis.
__ Ok... __ murmurou Cássio.
                                     
    Eles arrumaram as camas, deitaram e dormiram com as roupas que viajaram. Até mesmo Cássio, que estava com as roupas repletas de respingos de lama.
    Cássio demorou a dormir e então resolveu ir até a igreja, ver como ela era.
    Chegando lá, ele se deparou com uma igreja bem grande, em relação ao que ele via do lado de fora... parecia tão pequena... tão diferente dá de Roma...
    Os tons diferentes de lilás e azul bebê ficaram lindo na estrutura da igreja. Ele poderia acabar gostando de morar lá...