Sinopse

A história se passa numa cidadezinha da Itália, chamada Senilla. Uma cidade presa entre montanhas e o mar, com nenhuma ligação com outra cidade, a não ser andando três horas inteiras de carro ou navio. Lá, encontra-se o melhor hospital da Itália para o tratamento de doenças raras, chamada Síndrome de Turner e Síndrome de Noonan. E é com a viagem de Cássio e sua mãe para lá, em busca de um tratamento, que se inicia a história emocionante de O sacerdote.


domingo, 17 de fevereiro de 2013

Confissões no hospital

Primeira Temporada - episódio 13

    Ele viu ela vindo correndo e chorando em sua direção e virou-se para abraçá-la.
__ Senta aqui, vamos conversar.
    As pessoas que estavam sentadas viram que ela não tinha recebido uma notícia muito boa e deram espaço para ela no banco.
    Ela ainda chorando sentou-se e Samuel ajoelhou-se a sua frente, segurando suas mãos.
__ Samuel... qual seu tipo sanguíneo?
__ B+, mas o que houve, Bea? Me diz...
__ Eu to muito doente.
    Ela largou uma mão da dele e esfregou no olho, limpando uma lágrima.
__ Você sabe que eu sempre estarei do seu lado, não sabe? É por isso que eu te chamo de amor, é por isso que eu te amo, por você ser assim, meio marrenta mais também muito carente. Eu te amo, Beatrice Soprano, eu te amo muito.
    Ele virou os pulsos dela assim que ela abaixou a outra mão do rosto. Subiu suas mangas e ela começou a chorar mais forte.
    Ele sabia, Bernardo sabia, sua irmã sabia... Nossa...
__ É tão visível assim?__ perguntou ela, olhando nos olhos mel de Samuel.
__ Mas visível no seu modo de agir do que você imagina.
__ Mas... eu me cuido.
__ Não, Bea, você está errada, você não tenta esconder, você só deixa mais amostra que se corta. Você se mostra frágil sem perceber.
__ Eu me mostro frágil mesmo assim, marrentinha?
__ Mas do que você imagina __ repetiu Samuel.
    Ela chorou mais ainda enquanto Samuel a olhava nos olhos chorosos borrando a maquiagem preta.
__ Eu te amo cada vez mais. E eu sei que você não me ama, mas eu vou conseguir, eu não vou desistir.
__ Obrigada por não desistir de mim, todos fazem isso no fim. Todos.
    A mulher ao lado de Bea viu que Samuel olhou para ela pedindo para se sentar ao lado de Beatrice e chegou mais para a direita.
    Ele se sentou lá e a agarrou forte, envolvendo-a de um modo aconchegante.
__ Eu acho que estou começando a te amar, Samuel.
    Ele sorriu enquanto ela apoiava a cabeça no ombro de Samuel.
__ Eu sabia que esse dia chegaria.

    Cássio finalmente estava mais próximo do que nunca de ser convidado a ser um sacerdote da igreja. Ele já morava lá por caridade da igreja, ajudava sempre nas missas de domingo, mesmo depois de enfrentar problemas difíceis, o que mais restava?
    O padre Fernando já tinha até discutido com o padre Ícaro sobre essa possibilidade.
    Cássio tentou de todas as maneiras nesses últimos dias um jeito de agradá-lo, mas cada vez menos o padre Ícaro gostava dele.
    Ele chegou um dia a falar mal dele para a freira Sílvia, que não concordou com o que padre Ícaro dizia sobre Cássio.
    Cássio sabendo do que houve resolveu falar com Sílvia também.
__ Você confia em mim, né, Sílvia?
__ Claro que sim, o padre Ícaro só vai com a cara do Gabriel, também, né, ele é tão falso, mas tão falso que engana qualquer um.
    Cássio sorri em perceber que Sívia era muito nova para estar ali, será que ela fez algo errado do qual se arrepende?
__ Quantos anos você tem, Sílvia?
__ Eu? Tenho dezoito. Estranho, eu sei, mas tem coisas que eu fiz que não gostei, ai resolvi me converter.
    Bingo.
__ Qual era a sua religião?
    Sílvia pensou bem antes de responder.
__ Ah, Cássio... você ainda vai descobrir muitas coisas que existem entre o céu e o inferno.
    Ela calou-se, Cássio calou-se e eles ficaram ali, pensando até ficar de noite e terem que ir para seus quartos.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Não ter pai é e sempre foi um problema

Primeira Temporada - episódio 12

    Samuel estava na porta do colégio a espera de Beatrice já fazia meia hora. Cássio passou por ele e percebeu que estava a espera dela.
    Por que ela demorava tanto?
    Talvez estivesse apenas conversando mais com sua nova "amiga".
    Ela apareceu no portão sorridente, mas algo muito pavoroso ela guardava em seu coração.
__ Vamos pra onde? __ pergunta Samuel, enquanto Bea sobe na garoupa da moto.
    Ela sessou em falar. Não queria lembrar que era isso que fariam agora.
__ Primeiro eu quero beber.
    Ele seguiu para o beco e saíram de lá uma hora depois.

    Chegando no hospital, Samuel ainda sem saber o motivo deles irem para lá, Beatrice seguia para a central de exames de sangue sozinha e após pegar com uma enfermeira, ela é direcionada a um médico.
__ Mas eu não marquei consulta, por quê eu tenho que ir falar com ele?
    Bea estava possessa. A única coisa que a importava era se estava grávida ou não.
__ Ele pediu. Quer lhe ajudar __ a enfermeira pôs a mão envolta nos ombros de Beatrice, a deixando mais nervosa, como se ela tivesse algum problema grave.
__ Olá... __ diz o doutor com um crachá escrito Furlanetto.
    Ah, não, o pai da Letícia...
__ Fala logo se estou grávida ou não...
__ Não é sobre isso que quero conversar com você, agora sente-se...
    A enfermeira fechou a porta atrás de Beatrice, fazendo-a virar-se com os olhos arregalados.
__ Mas eu estou grávida ou não?
    Bea se sentou possessa.
__ Não, você não está. É algo mais grave, precisarei conversar com seus pais.
__ Morreram... __ Bea não conhecia seu pai, nem o de Joana, nem o de Tales, e não queria meter a sua mãe na sua vida.
__ Ok, então, vou tratar com você mesmo. Já tem dezesseis anos, é adulta praticamente.
__ Posso dizer que sei me virar...
    O médico finalmente se sentou após mexer em alguns aparelhos na parte de exames do lado de sua mesa.
__ Ótimo. Trabalha?
__ Pra que você quer saber isso, hein?
__ Não precisa me falar então, Beatrice.
__ Onde você descobriu meu nome?
    Bea cruzou os braços, estava vermelha como um tomate.
__ Conheço sua mãe, sei que ela ainda está viva, sei que você estuda com a minha filha e sei que não trabalha.
__ Ok, então... agora me explica porque me chamou aqui.
__ É o seguinte, Beatrice... você tem bulimia e anemia graves, precisa se tratar e precisa de uma transfusão de sangue.
    Tudo culpa de só ela sabe o que...
__ Ok, então. Era por isso que precisava falar com a minha mãe?
__ E com o seu pai, tem que ver qual sangue que é o compatível com o seu, pois infelizmente nossos bancos de sangue estão vazios, e o seu é mais ou menos raro.
__ Tá bom então, obrigada por me informar sobre isso, vou ver com a minha mãe qual o tipo sanguíneo dela, agora me explica uma coisa, qual o meu?
__ AB-, Bea... Espero que o dela seja o mesmo, se não só seu pai ou alguém que se candidate a doar sangue.
__ Ok, obrigada, era só isso?
    Bea se levantou e abriu a porta, pronta para meter o pé.
__ Sim, Bea, isso. Que já é muita coisa. Lhe aconselho a sair daqui e comer bastante, não quero que piore seu estado de bulimia.
__Ok... __ ela fez sinal de sim, senhor, como se estivesse no quartel e fechou a porta atrás de si.
    Ainda bem que ela não estava grávida, era só isso que ela pensava. Samuel a amava e não gostaria de saber que ela estava grávida do amor de sua vida.
    Avistou Samuel encostado na parede a uns cinco metros de distância, seguiu correndo para seus braços meio chorosa. Precisava de seu colo urgentemente, ela estava começando a amá-lo.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Desentendimentos e namorados caminham juntos

Primeira Temporada - episódio 11

    Era terça-feira e Bea estava cabulada a aula toda. Não deu nem um pio. Nenhuma palavra, nem mesmo um "oi" para Cássio.
    Ela só chegou e abraçou forte Cássio, como se previsse algo ruim.
    Ontem era o dia que ela iria buscar o resultado do exame de sangue. Ela adiou para hoje, pois Samuel podia ir com ela.
    Cássio conversou com Beatrice até seis horas da tarde de segunda-feira na pedra e ela não queria incomodá-lo, mas também não queria ir sozinha.
    O sinal do fim da aula tocou e Cássio esperava que Beatrice fosse lanchar com ele, mas ela seguiu sozinha e calada até o banheiro, fazer o seu costume de sempre. Chorar sozinha.
    Enquanto ela chorava percebeu que alguém entrou no banheiro, chorando também.
    Mas quando ela olhou por baixo da porta do banheiro, viu mais de dois pés.
__ O Rômulo tá querendo morrer!
    Ah, não, é a Letícia.
__ Amiga, fica calma, uma hora ele vai ter que esquecer a Beatrice, e, pensa pelo lado positivo, miga, ele tá com você agora, com você!
    Essa deveria ser a Bárbara. Um brilho surgiu nos olhos de Beatrice. Rômulo ainda estava total e completo na dela.
__ Olha, eu acho que o amor também acaba...
    Essa com certeza era a babaca da Cecília, querendo sempre agradar, mas nunca sabendo como falar.
__ Amor?!?! Você está falando que ele ama ela?
__ Não foi bem isso que eu quis dizer, considera só a parte que diz que acaba.
__ Não sei porque eu ainda não te expulsei.
    Cecília se calou e Bárbara ficou na dela.
__ Beatrice Soprano, por que você enfeitiçou o coração do meu namorado?!?!
    Bea se sentiu ameaçada, e resolveu pôr as caras.
    Ela abriu a porta e saiu com um empurrão, assustando imediatamente Cecília, a traumatizada.
__ Desculpa Letícia, se te peguei num momento ruim __ ela cruzou os braços e continuou sem ser interrompida por nenhuma das três __ mas eu precisava dizer a verdade. Seu namorado me ama sim! E eu não precisei enfeitiçá-lo ou nada do tipo, porque o amor surge sem nada disso!
    Letícia não aguentou e começou a chorar. Rômulo podia amar a Beatrice e Letícia podia odiá-la, mas ela amava Rômulo com todas as forças.
__ Ok, mas deixa meu namorado em paz, não encontre com ele de novo, por favor!
__ Eu nunca mais encontrei com o seu namorado depois da balada. Claro que já conversamos na escola e tals, mas nada de namoro ou outros encontros... nada, eu... realmente te juro.
    Beatrice não podia mexer com um coração balanceado com o amor, pois ela também não gostaria que mexessem com o seu.
__ Vamos combinar assim então? __ Bea continuou falando, já que viu que Letícia ainda estava em estado de choque __ Eu não mecho mais com o seu namorado e você não meche mais com o Cássio, tá bom?
__ Mas eu...
__ Eu sei que você nunca fez nada pra ele, mas eu também sei o que você tem em mente, já que você não frequenta a igreja e odeia católicos fervorosos.
    Bea sorriu de canto. Ela achava engraçado falar isso, afinal, ela também não frequentava a igreja e não gostava de religiões
__ Ok, combinado.
    Letícia esticou a mão e Bea fez o mesmo. O enlace fez com que as duas se fuzilassem com os olhos.
    Elas poderiam estar se entendendo, mas isso seria feito aos poucos, ainda há muitas desavenças entre elas à espera de uma fagulha de fogo na fogueira.

    Enquanto um acordo do século era firmado no banheiro feminino, Cássio tentava achar algo para fazer enquanto passava mais um recreio sozinho.
    Ele avistou um aluno do primeiro ano indo em sua direção. Fingiu não percebê-lo.
__ Olá, qual seu nome? Meu nome é Alencar, vamos ser amigos?
    Cássio se assustou assim que viu que o garoto sentou do seu lado.
__ Quantos anos você tem?
    Ele parecia uma criança.
__ Tenho quatorze, sou adiantado.
    Estava explicado.
__Prazer, sou Cássio, do segundo ano.
__ Você nasceu aqui em Senilla?
__ Não, mas... deixa pra lá, e você?
__ Também não, mas eu gostei daqui, quer dizer, gosto, né, ainda.
    O garoto sorriu nervoso.
    Seria bom para Cássio ter um amigo que também não nasceu em Senilla, discutir com ele sobre os pós e os contra de ter se mudado para lá e descobrir novas vidas que também podiam ser tão sofridas quando a sua.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

O que resta agora para serem melhores amigos?

Primeira Temporada - episódio 10

    Segundas-feiras sempre são entediantes. Principalmente quando não se tem nenhum motivo para frequentar as aulas. Quando se perdeu tudo o que lhe importava. Quando só lhe resta o seu futuro ainda não escrito.
    Cássio não queria pensar no seu futuro. Para ele, sua vida poderia acabar naquele momento.
    Morrer virou rotina. Morrer. Não se sentir vivo. Não se sentir no mundo, em seu corpo. A morte virou rotina.
    E ele se acostumou bastante com essa situação.
    A única que ele ainda não conseguia encarar de cara era a ideia de estar sozinho no mundo, com apenas dezesseis anos. Ninguém puxando o seu saco, ninguém lhe mandando fazer as coisas. Ninguém tomando conta dele.

    Assim que ele chegou na sala, ele se sentou e percebeu a falta de Beatrice no primeiro tempo, no segundo tempo, no terceiro tempo...
    Ele ficou sozinho no recreio e durante o resto do dia.
    Após as aulas, ele resolveu ir na casa de Bea, saber por que ela tinha faltado.
    Ela atendeu com a cara cansada, abrindo a porta com os olhos marcados por olheiras enormes, mas assim que viu que era ele, algo aconteceu dentro dela. Algo diferente.
    Eles estavam se tornando amigos.
    Sua maquiagem estava borrada, seu coração pulando forte para fora de seu peito e ela arregalou os olhos.
__ Oi... __ ele disse levando a mão a cabeça e a coçando meio que distraído.
    Beatrice adorava isso. E os homens nunca percebiam que isso era sexy.
__ O-oi... __ ela gaguejou e encostou no batente da porta.
__ O que houve pra você faltar a aula hoje?
__ Nada de mais. Só não quis ir.
__ E me deixou lá sozinho, né... Você ainda tem que me explicar aquele negócio de terreno...
    Bea estava tão envergonhada vendo a sinceridade e a ingenuidade de Cássio que nem sabia o que falar.
__ Ah, para com isso... eu te explico depois. Planos para hoje de tarde?
__ Nenhum. Vamos... sair pra conversar?
    O coração de Beatrice pulou e ela nem sabia o que estava acontecendo com ela. Uma amizade forte estava se formando.
__ Terrenos, né... eu sei que você quer saber mais sobre a minha religião. É um segredo até para mim.
    Cássio riu e coçou de novo a nuca, abaixando a cabeça.
    Após Cássio esperar Bea se arrumando para sair, eles seguiram para A pedra.
    Cássio percebeu que Bea também adorava aquele lugar.
    Eles sentaram lá e começaram a conversar. O que Cássio achava estranho em Beatrice virou mistério total. Tudo mudou quando ele percebeu que ela era dócil quando queria. E ainda bem que ela estava querendo. Cássio estava precisando muito de um ombro amigo.
__ Sabe do que eu costumava te chamar no meu subconsciente?
    Bea riu com a pergunta arriscada.
__ Olha... eu diria que não quero saber, porque agora tudo mudou, principalmente nosso ponto de vista de um para o outro, mas do jeito que eu sou curiosa, me diz logo senão eu te jogo do precipício.
    Cássio riu.
__ Você não vai gostar... mas já que você me jogaria do precipício... eu te chamava de vampirinha do inferno.
    Bea ficou emburrada, mas logo entendeu que Cássio não falou por mal.
__ Por causa dos meus piercings? Das minhas tatuagens? Minhas roupas pretas e escuras? Minha maquiagem negra?
__ Isso e as suas atitudes.
    Bea voltou a rir. Chegou a gargalhar.
__ Eu te assustei no seu primeiro dia de aula, né?
    Ela continuou rindo.
    Eles conversaram bastante. Bea não mencionou mais nada sobre as coisas terrenas, mas a amizade deles cada vez mais se fortificava e Cássio sabia que um dia ela desabafaria sobre isso.
 
    Após cansarem de gastar saliva e ficarem só ali admirando a vista, Bea olha o relógio no pulso de Cássio e tomba para trás.
__ Tenho compromissos __ diz ela após deitar no chão gramado.
__ Por que você não vai cumprí-los, então?
__ Não to afim, sabe como é, né... Revelações, e tals...
    Ao mesmo tempo que ela parecia relaxada, parecia intrigada, com medo, reservada.
__ Quer que eu vá com você?
__ Você iria?
    Ela levantou e sorriu para Cássio que ficou tímido e tirou a mão de cima da barriga de Beatrice, do braço do qual ela havia checado as horas.
__ Bem...
__ Não, deixa pra lá, eu não posso ficar mandando você fazer as coisas comigo, muito menos ficar colocando você assim na minha vida... eu não quero irritar nem incomodar você com a minha ladainha ridícula. Desculpa.
    Ela novamente encostou a cabeça no ombro de Cássio.
__ Eu não ligo de entrar na sua vida rapidamente. Você sabe que já invadiu a minha.
    Ela sorriu mas sem deixar com que Cássio visse.
__ Cas... posso te chamar assim?
__ Pode, claro. E eu, te chamo de quê?
    Bea pensou bastante.
__ Vampirinha do inferno tá bom...

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Enterro dos milagres

Primeira Temporada - episódio 9

    Beatrice chegou bem na hora que ela combinou com Cássio.
    Ela subiu os três degraus que levavam ao altar e deu uma cutucada no ombro de Cássio, que estava olhando para o caixão aberto onde estava a sua mãe.
    Ele olhou de relance e quase a abraçou, mas deteve-se.
    Ela lhe entregou o ursinho que havia comprado.
__ Obrigado.
    Foi tudo o que ele conseguiu dizer. Naquele momento de tristeza, lágrimas saltitavam de seus olhos e o ursinho de pelúcia na mão daqui a instantes se encontraria encharcado.
__ Nada. Eu... eu... eu to feliz por você ter me chamado. Pensei que não confiasse em mim... pior,... que me odiasse.
    Cássio se assustou e quase deu um pulo para trás. Com toda certeza ele não confiava em Beatrice e com toda a certeza não a queria ali, mas naquele momento, percebendo que não tinha amigo algum para apoiá-lo, ele preferiu ter uma inimiga, que ele mais chama de "vampirinha-do-inferno" a não poder chorar no ombro de mais ninguém.
    Beatrice riu do susto de Cássio.
__ Lamento, muito. Eu sinto a sua dor. O estranho é que eu sou masoquista, __ ela assumiu com calma, como se isso fosse normal __ gosto da dor, às vezes.
    Dava para perceber que Beatrice gostava da dor. Além da enorme quantidade de piercings por todo o rosto, na sobrancelha, na boca, na língua, na orelha no mínimo uns cinco, no nariz... Ela ainda tinha muitas marcas incontáveis de cortes nos pulsos. Cássio achava isso repugnante, e esse era um de seus motivos para odiá-la, mas ele seguiria a sua causa. Salvá-la.
    Beatrice sabendo que ele olhava fixamente para sua orelha, contando seus piercings, resolveu deitar seu rosto no ombro dele, fazendo-o se arrepiar.
__ Sabe, Cássio... Eu sei que posso ser diferente, ou, sei lá, uma diabinha na sua opinião. Mas saiba que eu sou a única garota que não acha você esquisito, sabe por quê?
__ Não __ disse Cássio com a voz um pouco rouca ainda de tanto chorar.
__ Por que nós somos iguais, de alguma maneira, Cássio. E também por eu me achar a mais estranha do mundo.
    Cássio levantou uma sobrancelha assustado.
__ Você pode até me xingar de todos os nomes, se sua religião permitir, mas não tente mudar o destino. Se você acredita em Deus, continue acreditando, mas não deixe de acreditar no terreno também.
__ Como assim? __ pergunta Cássio curioso sobre a religião indefinida de Beatrice.
__ Terreno, Cássio. Coisas terrenas __ Beatrice apertou a rosa vermelha que segurava entre suas mãos.
    Ela a tacou dentro do caixão e levantou a cabeça do ombro de Cássio. Ele fez o mesmo com o buquê de rosas brancas.
__ Ela é... era linda.
    Beatrice fechou o caixão ao perceber que Cássio começaria a chorar, levantou a barra do vestido preto e começou a caminhar para fora da igreja. Cássio ficaria sem respostas naquele dia. Só com o pensamento grudado no que Beatrice deixou ao vento.
    Começando a chover lá fora, Beatrice começou a correr em direção a uma moto com um cara de roupas pretas e capacete. Deveria ser o mesmo namorado que a foi buscar na escola naquele dia. Ele deu um para ela também e partiram. Cássio fez o sinal da cruz e se retirou pela porta dos fundos, indo em direção ao descanso dos padres. Lá, ele encontrou o padre Fernando, e sem dizer nada os dois voltaram para a capela e rezaram juntos. No final, interessado, padre Fernando começou a questionar Cássio.
__ Quem era aquela garota?
__ A vampirinha do inferno de quem eu sempre falo.
__ Por que a chamou até aqui?
__ Nada, padre, eu só... queria ter alguém para com quem conversar nesse momento.
__ Sua mãe não iria gostar da presença dela aqui. Aposto que ela está te fuzilando com os olhos do céu.
__ O que eu poderia fazer padre? Ela preferiria com certeza Beatrice a me ver sozinho chorando o tempo todo. E, pelo, menos, ela trouxe uma rosa. A presença dela não foi tão ruim.
__ Não quero que você passe para o lado dela, entendeu? Chega de dar ouvidos as conversas bobas dela.
    Parecia que o padre Fernando tinha sexto sentido.
__ Sim,... sim, senhor.
    Padre Fernando se retirou e foi lá fora, dizer para os encarregados de levar o caixão até o cemitério para tirarem ele de lá.
   Naquele momento, Cássio não se aguentou, agarrou o ursinho marrom com uma blusinha do Iron Maiden e começou a chorar. Saiu e encontrou o padre Fernando na porta da igreja, o esperando. Entraram no carro da funerária e seguiram em direção ao cemitério.


sábado, 12 de janeiro de 2013

Véspera

Primeira Temporada - episódio 8

    Após algumas gaguejadas, Bea o tinha convidado para entrar em sua casa e eles conversaram muito pouco.
    O enterro aconteceria às quatro horas da tarde, e ele havia ido a sua casa eram dez da manhã.
    Ela aproveitou o tempo livre que tinha para comprar algum mimo para Cássio, e mais alguns piercings para ela.
    Pegou escondida o dinheiro que tinha na bolsa da mãe e foi até a lojinha de trecos mais próxima.
    Logo que entrou a vendedora tentou entretê-la e começou a mostrá-la tudo, mas nem precisou mostrar tanto, pois ela se apaixonou pelo ursinho de pelúcia roqueiro que havia na vitrine.
    Logo que a vendedora embrulhou o ursinho, ela pediu para pegar alguns piercings para ela ver melhor e depois saiu de lá com uma sacola de compras na mão e satisfeita.
    Assim que chegou em casa, ela desembrulhou o ursinho e o encheu de perfume. Ela queria que ele ficasse com o seu cheiro. Faltaria o cheiro de fumaça de cigarro e de vodka, mas isso não importava muito.
    Como ela não sabia reembrulhar o urso de pelúcia ela o daria daquele jeito mesmo.
    Resolveu descansar até chegar a hora do enterro.
                               
    Cássio já estava nervoso. O hospital ainda não havia liberado o corpo para o enterro e ele não aguentava mais de agonia para ver a sua mãe pela última vez...
    Falando desse jeito parecia que ele iria esquecê-la, mas nunca. Ele nunca a esqueceria.
                             
    Samuel estava esperando uma ligação da namorada já faziam-se três horas.
    Ele ligou de manhã, umas dez horas. Chamou, chamou e ninguém atendeu.
    Ele ligou depois de tarde, era duas e pouco. Deu fora de área.
    Ele ligou agora, que já eram três e meia. Chamou, chamou e ela finalmente atendeu.
__ Oi?
    Para Samuel foi um alívio escutar a voz da namorada.
__ Até que enfim... você nunca atendia o telefone.
__ Ah, eu... estava meio ocupada hoje...
__ Ocupada? Com o quê?
    Bea pensou antes de falar.
__ Eu vou a igreja.
    Samuel quase que trancou a moto errada.
__ Mesmo? Jura?
__ Sim, mas não para fazer isso que você está pensando. Eu vou a um enterro.
__ Ah, tá. Po... que susto. Mas enterro de quem?
__ Vai lá me buscar quatro e pouquinho, não vou ficar muito tempo.
__ Enterro de quem?
    Samuel já estava possesso.
__ Não te interessa. Você não conhece.
__ Ok, então...
    Samuel pareceu um babaca dizendo aquilo. Não a interrogando. Ele tinha noção disso.
                         
    Cássio estava pronto. O corpo de sua mãe chegou na igreja e ele seria sepultado no cemitério mais próximo.
    Haviam rosas azuis, a cor favorita de sua mãe, em torno dela dentro do caixão.
    Ao mesmo tempo que ele tentava olhar para dentro do caixão, ele tentava pensar que ela poderia não estar ali.
    Que ela poderia estar viva. O esperando no quarto deles. Com uma baita de reclamação dele, como sempre. Segurando seu almoço que a freira trouxe, pois ela já tinha comido o dela.
    Ele chegaria, a abraçaria bem forte e diria tudo aquilo que ele nunca havia dito em todos esses anos.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Um convite que surpreende

Primeira Temporada - episódio 7

    Cássio já estava bem íntimo do padre Fernando e de todos da igreja, menos do padre Ícaro. Só necessitava da aprovação deste para ele se tornar um sacerdote da igreja como era em Roma.
    Ser um sacerdote... poucos valorizam o trabalho e o esforço que um sacerdote exerce. Ele sempre amou fazer isso e chamava de carreira desde os seus treze anos, quando finalmente se tornou sacerdote após três anos de coroinha.
    Ele estava sentado na sua cama olhando para a cama de sua mãe a sua frente. Ele permitiu que uma lágrima caísse de seus olhos quando seu telefone bipou no seu bolso.
    Uma nova mensagem. Ele leu no visor do celular.
    Apertou em ler mensagem e começou a chorar.
    Pensar na sua mãe era o que ele menos queria.
    Cara só li a sua mensagem agora, me desculpa, ok? O enterro vai ser quando?
    Sua mãe tinha morrido na madrugada anterior. Um dia que ele guardaria tristemente no seu coração.
    Ele ia responder a mensagem mas acabou só a respondendo mentalmente. Seu amigo não poderia chegar assim tão rápido de Roma até Senilla.
    Já eram cinco da manhã e sua mãe tinha morrido uma hora da madrugada. Ele perdeu o ânimo dos sábados que ele sempre tinha.
    Não conseguia pensar em mais ninguém que pudesse ir ao enterro e ajudá-lo. Ninguém realmente era amigo dele além do padre Fernando. Nem mesmo com o doutor ele teve uma intimidade.
    De alguma forma extremamente estranha, ele pensou em Beatrice.
    Como? Como ela poderia ajudá-lo? A vampirinha do inferno, enviada diretamente das profundezas do inferno e produzida por satanás... Convidá-la para o enterro?
    Ele pensou milhares de vezes não, não e não até uma luz faiscar mais forte.
    Ele lembrou dela saindo do banheiro assim que o sinal do término do recreio tocou. Sua camiseta era de meia manga e azul marinho, mas como estava frio ela colocou outra branca por baixo, de manga comprida.
    Ele pode assim ver as manchas que o sangue, de ter cortado, os pulsos deixou na camisa.
    Aquilo entristeceu seu coração com tanta força que o fez lembrar de que a igreja a ajudaria. E se ela fosse com algum motivo menos óbvio do que a confissão de seus pecados, principalmente amolecida com a notícia da morte da mãe de um amigo, a salvação chegaria sem ela nem perceber.
    Decidido, Cássio limpou as lágrimas, levantou-se da cama e seguiu para a escola. Lá ele descobriria o endereço de Beatrice e poderia surpreendê-la com sua visita.
    Após pedir o endereço para a secretária dizendo que precisava para concluir um trabalho em grupo, ele seguiu para o endereço indicado.
    Lá era praticamente o Brooklyn. Vários prédios de classe média e baixa e crianças correndo avoadas pelas ruas.
    Ele procurou o número 126 pela rua toda, até ver que o número estava com o seis solto em uma das pontas, assim virando um nove.
    Falou rápido com o porteiro e entrou.
    Subiu os quatro ramos de escadas e chegando no apartamento de Beatrice lhe faltou coragem.
    Bato ou não bato logo na porta? Bato logo ou corro?
    Ele ficou no lero lero até criar coragem e tocar a campainha que ele nem havia percebido antes.
    Uma voz feminina atraente se aproximou da porta e ele levou um susto quando ela abriu.
    Seus olhos negros e cabelos negros o enfeitiçaram. Ele nunca tinha percebido tanto quanto naquele momento o quanto Beatrice tinha um formato de rosto tão atraente.
__ Ah, oi... é você, né... como descobriu meu apartamento?
    Bea coçou a cabeça, encostou o braço no batente e cruzou os pernas. Ela estava se sentindo desconfortável que nem da vez no hospital.
    Cássio se lembrou do motivo de estar ali e começou a chorar.
__ Você... poderia... ir... no enterro... da minha... mãe? __ perguntou Cássio entre soluços enquanto limpava as lágrimas que caiam de seus olhos.
    Ele não queria parecer infantil, mas nada que ele quisesse estava acontecendo na sua vida. Ele tentou parar de chorar e soluçar.
    Ela continuou sem palavras, espantada e abismada. Boquiaberta em frente a Cássio.
__ Por... por que eu?
    Foi a única coisa que ela conseguiu dizer.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Letícia, a babaca feminista

Primeira Temporada - episódio 6

    Era quarta-feira. Beatrice estava indo para a escola quando seu telefone toca. Era de sua casa.
__ Fala, bastardo __ ela atende o telefone irritada correndo na rua para atravessá-la antes que o sinal fechasse.
__ Você esqueceu seu absorvente.
    Beatrice grunhiu. Aquele perturbado só tinha a ligado para dizer isso?
__ Não preciso. Tchau.
    Ela desligou o telefone.
    Isso era verdade. Ela não menstruava a uns cinco meses. Não se preocupou pois nunca havia transado com Samuel. Mas pensando assim, cinco meses batia com a sua última vez com Heitor. Ele foi embora em novembro do ano passado e já era abril.
    Assim que chegou na escola ela correu para o banheiro. Ficou lá, sentada no vaso. Apoiou a cabeça na mão e os cotovelos nos joelhos.
    Ela teria que ir no ginecologista ainda hoje. Correr para o hospital e ver logo o que tinha de errado com ela.
    Olhou rápido em volta e viu que tinha alguns papéis pendurados novos.
    Na sua escola quem escrevia nas portas não era o único multado e obrigado a esfregá-las. Todas as meninas, ou meninos, tinham que fazer o trabalho sujo.
    A cabine onde ela estava era repleta de papéis que depois as serventes tiravam.
    Uma lágrima caiu de seus olhos e quando ela virou para pegar umas folhas de papel para limpar o rosto, ela acabou lendo o papel em cima do porta papel higiênico.
    "Beatrice é o homem da relação."
    O papel era rosa, escrito com caneta com glitter roxa.
    Beatrice sentiu o calor do ódio ferver o seu rosto. Se levantou correndo do vaso ainda fechado e escancarou a porta, quebrando a fechadura.
    Com pisadas fortes no chão ela seguiu para sua sala de aula e escancarou a porta. A turma toda se assustou. Eles já estavam no final do primeiro tempo. Beatrice sempre chegava atrasada.
    Ela seguiu em direção a carteira de Letícia, que era uma das primeiras carteiras. Bateu com força o punho na mesa, nem ligando para o professor que estava na sala de aula.
    Letícia se assustou mas logo depois cruzou os braços e deu um sorrisinho de meia tigela, olhando o papel rosa na mão de Beatrice.
__ Rômulo disse pra mim que foi você que chegou nele, e não o contrário.
__ O que você tem a ver com isso, garota? Se mete na sua vida! E se ele ainda fala de mim, é por que ele ainda gosta de mim! Se manca!
    Beatrice olhou para trás e viu o professor de braços cruzados, ainda perplexo com o acontecimento.
__ Desculpa, professor __ disse Beatrice com cara de nojo.
    Ela seguiu em direção a sua carteira do lado de Cássio e se sentou sorrindo falsamente para ele, o deixando envergonhado.
    As aulas passaram rápido e assim que bateu o sinal Cássio correu para fora da sala. Beatrice pensou que fosse para não cruzar com ela novamente, mas ontem ele nem tinha corrido, deveria ser outra coisa.
    Assim que Cássio chegou no hospital ele foi direto para o quarto de sua mãe.
    Ela estava deitada lá, com o aspecto muito cansado, dormindo e com alguns fios ligados ao seu corpo.
    Seu primeiro dia de tratamento não tinha dado muito bem...
    Cássio olhou rápido para trás e viu o doutor.
__ Doutor, doutor! __ ele gritou correndo atrás do doutor Furlanetto.
    O doutor Furlanetto virou-se e sorriu, ainda segurando a prancheta que iria entregar para uma enfermeira. Ele disse enquanto ajeitava o estetoscópio no pescoço:
__ Ah, sim, você é o filho da senhora Brumma, não é?
__ Sim, sou eu.
__ Ela vai ter que ficar aqui, tudo bem? Sobre minhas fiscalizações.
__ Tudo... tudo bem, sim. Claro, é até melhor, não é?
__ Sim, isso ai.
    De repente Cássio olha para trás e vê a menina com quem Beatrice tinha discutido na aula de matemática 2.
    O doutor também olha e sorri.
__ Filha, você deve conhecer o...
__ Cássio __ respondeu Cássio, percebendo que o doutor não lembrava o seu nome __ Sim, nos conhecemos. Estudamos na mesma sala.
    O doutor Furlanetto abraçou a Letícia e ela sorriu ao ver Cássio.
__ Oi, Cássio. Não nos falamos muito, mas oi.
    Ela sorriu friamente depois. Não seriam grandes amigos, pelo menos era isso o que Cássio pensava.
__ Oi.
    Cássio também tentou ser frio.
    Letícia tentou se descolar do abraço do pai e quando ela ia continuar andando pelo corredor ela deu de cara com Beatrice.
    Cássio olhou para trás e a viu também.
    Beatrice meio envergonhada tentou cruzar os braços mas depois desistiu e colocou as mãos na cintura.
__ Você não pode tentar me expulsar do hospital também, Letícia. Nem da escola, nem das ruas por onde você passa e muito menos das baladas que seu namoradinho frequenta sem você. Ops, escapoliu __ Beatrice disse olhando diretamente nos olhos de Letícia.
__ Eu sempre vou nas baladas com Rômulo, ele nunca vai sem mim!
    Letícia saiu correndo sem rumo pelo corredor.
    Beatrice sorriu e seguiu seu rumo.
    Cássio ficou parado perplexo e olhou de novo, virando-se, para o doutor Furlanetto.
__ Elas nunca brigaram antes, na verdade, se odiavam tanto que nem se olhavam, muito menos se falavam, mas foi só minha filha começar a namorar o Rômulo que elas começaram a ter coisas em comum.
    Cássio começou a entender um pouco e então voltou para o quarto de sua mãe.

domingo, 23 de dezembro de 2012

Normal passar o recreio sozinho

Primeira Temporada - episódio 5

    Não havia nada mais sem graça que primeiro dia de aula. Os antigos amigos rindo e conversando sobre seus finais de semana perfeitos, os tímidos no canto na frente da sala já começando a se prepararem para começar a estudar e Cássio, o garoto não tímido, mas que ficava sozinho no fim da sala remoendo seus pensamentos em voltar logo para casa para cuidar de sua mãe doente e rezando nos horários vagos.
    Cássio pensava ser o único solitário. Até a aula começar.
__ Bom dia, alunos queridos. Como foram os finais de semana de vocês? Aproveitaram bastante?
    Naquele momento, enquanto a professora que parecia ser a mais querida dos alunos pronunciava palavras gentis entrava pela porta da sala, já encostada pela professora, Beatrice.
    Com um olhar árduo, Beatrice procurou um lugar para se sentar, e para infortúnio de Cássio, ela se sentou ao seu lado, no fundo da sala.
    Eles passaram boas aulas se entreolhando assustados. Beatrice parecia odiar todos os professores que entravam. Ela os odiava mesmo. E eles a odiavam também.
    Cássio ficou olhando distraído num intervalo para Beatrice, resolvendo assim chamá-la de vampira.
    As cores que se contrastavam de seus cabelos negros e de seu batom vermelho carmesim na boca. Uma bela vampira de filmes antigos. Bela? Ok, vamos deixar o bela de lado. Mas ela era bela, porém estranha também.
    Ele sabia que Beatrice, a garota vampira, de acordo com ele, também não conversava com ninguém, mas ele não a considerava uma pessoa que merecesse amizades.
    No recreio, Cássio tentou puxar papo com Gabriel, um sacerdote da igreja em que ele estava "alojado", mas Gabriel já tinha seus amigos e nem deu muito interesse a Cássio.
    Cássio foi lanchar sozinho, no canto próximo do jardim das freiras da escola.
    Foi só ver Beatrice passar na sua frente que ele estremeceu.
    Como? Como meu Deus? Como deixaram uma vampirinha do inferno como essa estudar nessa escola tão católica e conhecida como esta?
    Frustrado, Cássio continuou a comer seu sanduíche de pão de forma com patê de frango sozinho, isolado, no fundo da escola.
    Logo que bateu o sinal, Cássio correu para a sala.
    Não havia motivo para a correria, mas era melhor ele chegar logo antes que cruzasse sozinho com Beatrice no meio do corredor e se espremessem juntos para entrar na sala.
    Isso seria pavoroso. Beatrice para Cássio era mais do que uma vampirinha do inferno ou um monstro.
    Ela era uma tentação.
    Não uma tentação sexual ou de blá, blá, blá, afinal, ele só a conhecia a duas horas ou três! Era mais uma tentação do inferno sobre ele. E ele não tinha muitas boas experiências com essas tentações...
                                   
    Ele era vulnerável.
    Ainda é.
    Acreditava em qualquer um, em qualquer palavra doce, mesmo que falsa. Ele era um bebê adulto e ingênuo.
    Num sábado qualquer, na frente da igreja na qual era sacerdote na Roma, Cássio estava perambulando, sem rumo, após ser enganado.
    Uma garota, a primeira garota. A primeira! O enganou, o levou para o mal caminho e agora ele estava à beira do abismo, sem saber como pôde confiar nela.
    Por isso ele fugia de qualquer garota que parecesse "errada". E Beatrice com toda certeza era a errada. A mais errada de todas. Principalmente para Cássio.
                                 
    Eles se entreolharam mais um pouco durante as últimas aulas até o sinal tocar.
    Cássio não sabia se corria para ser o primeiro a sair da sala e não cruzar com Beatrice ou se ele esperaria até ela sair.
    Para ele, cruzar com ela seria como se ele tivesse um minuto no inferno de graça.
    Todos já haviam saído da sala até só ficarem eles dois lá dentro.
    Beatrice paralisou ao perceber o aluno novo parado a olhando aterrorizado já com a mochila nas costas. Pensou bem até perceber uma pulseira com uma cruz no braço de Cássio.
    Ah, não, mas um religioso nessa escola religiosa. Amante de Deus, do céu, que acredita em todas essas baboseiras, pensou Beatrice.
__ Vai ficar mesmo me olhando assim, novato? __ ela parou de braços cruzados na frente de Cássio. Sua mochila pendurada em um só de seus braços flácidos.
    Ele não fez nada além de arregalar os olhos e pensar: Era melhor eu ter saído antes. Burro, burro, burro. Você mesmo se pôs a ter esse encontro horripilante com ela.
__ Bu! __ gritou Beatrice fazendo Cássio, distraído em seus pensamentos arregalar ainda mais os olhos e dar um passo atrás e tropeçar na cadeira.
__ Bem feito, quem mandou ficar me espionando no final da aula.
    Beatrice deu de ombros e saiu da sala.
    Cássio respirou fundo e  logo após Beatrice passar pela porta ele também passou, atrás dela.
__ Vai me seguir?
__ Não, eu só sai da sala atrás de você, algum problema?
    Agora quem ficou surpresa foi Beatrice. Ela cruzou os braços novamente e fez cara de desinteressada, mas na verdade ela gostou da atitude de Cássio.
    Quando ela viu Samuel na moto do outro lado do portão ela saiu correndo da vergonha que tinha passado e subiu correndo na garoupa da moto dele e mandou-o acelerar.
                               
    Chegando no quartinho dele e de sua mãe, Cássio a vê acordada, de cara bruta olhando fixamente nos olhos dele.
    Na noite passada Cássio não fora buscar a sua mãe. Ele foi ao quarto do padre Fernando e lhe deu o dinheiro dizendo: Vá buscar minha mãe, eu simplesmente não consigo.
    Então quando o padre Fernando chegou com sua mãe ele estava dormindo.
    Ainda deitada na cama, a senhora Brumma começa a brigar com ele.
__ Eu confiei em você, Cássio!
    Ele largou a mochila ao pé de sua cama e se sentou lá, virado para a sua mãe que com todas as forças tentava se levantar.
__ Desculpa mãe, mas depois de tudo aquilo que você me disse eu realmente não me senti bem...
    Quando ela finalmente sentou, seus olhos se arregalaram e ela se pôs a chorar.
    Um destruiu o outro. Cada um do seu jeito.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Finais de domingo tumultuados

Primeira Temporada - episódio 4

__ Você por acaso a beijou? Você não devia! Isso eu não posso desfazer de jeito nenhum! __ madame Soprano gritava tentando fazer silêncio para a filha não ouvir. Era difícil...
__ Não, eu não a beijei! Mas... tá difícil... Madame Soprano, eu acho que seu feitiço não está mais funcionando. Quando eu olho naqueles olhos negros...
__ Obrigada por me avisar! Preciso urgente preparar outra poção. Já foi para casa? Se sim volte correndo. Preciso preparar um pra te proteger e o de Beatrice.
__ Não, não fui para casa ainda... to aqui embaixo. Vem logo que eu já estou abrindo o portão.
__ Estou indo.
    Madame Soprano deixou a filha aos berros tentando pegar o brinquedo da mão de Tales e desceu as escadas correndo sem nem se explicar.
    Beatrice nem se preocupou e até meio que se sentiu melhor sozinha.
    Ao atravessar a rua, madame Soprano teve uma visão. Era uma garota... uma garota... uma garota voltando. Voltando para Senilla. E em busca de Beatrice.
    O coração de madame Soprano se apertou. Joana não a poderia levá-la antes do tempo.
__ Eu vou ter que preparar três feitiços. Um para você se proteger e não ter mais desejos por Beatrice. Outro para afastar Joana para que ela não volte antes do tempo e o de Beatrice.
    Caterina chegou atarefada e falando tudo que precisava em seu espaço de trabalho. Entrou agachada por causa dos lenços pendurados e logo que deu de cara com Bernardo começou a pedir os ingredientes.
__ Orégano, que atrasa o tempo...
__ Espera! Quanto tempo ela tem antes de Joana vir? __ Bernardo não deixou Caterina terminar.
__ Não sei... minha visão foi meio turva... acho que só temos um ano. O que significa que é muito pouco tempo.
__ É,... eu sei que um ano é pouco tempo.
    Bernardo a passou o orégano e ela continuou a lhe pedir ingredientes.
                               
    Cássio já não aguentava mais ficar virado para a parede, deitado na cama e jogando sua bolinha quica.
    Sua mãe estava demorando demais, e pelo o que ele pensava, ela seria a única a ser consultada. Será que já iriam começar os tratamentos? Será que ela... Não, melhor esquecer.
    Ele continuou ali, tentando não se preocupar. Mas quando seu celular vibrou no seu bolso ele deu um pulo, sentou na cama correndo e atendeu.
__ Alô.
    Sua voz estava ofegante.
__ Amor, venha me buscar, meu dinheiro está embaixo do travesseiro. Pegue um táxi.
__ Você... você está bem?
    Ela demorou um pouco a responder, o que o deixou com medo, muito medo.
__ Eu tomei um remédio que me deixou sonolenta, mas além disso eu estou bem.
    Um alívio tomou conta tanto da face de Cássio, quanto de seu coração.
__ Eu... eu vou chamar o padre Fernando pra ir comigo, ok?
    Ela inspirou fundo do outro lado da linha.
__ Eu não quero que ele me veja nessa situação, não quero que ninguém me veja assim, nem você... mas o que eu posso fazer? __ ele podia ouvi-la soluçar do outro lado __ Você é quase obrigado, Cassinho. Agora eu percebo que ter você não foi realmente um milagre de Deus. Nós,... nós sofremos muito juntos. Minhas doenças não afetaram só a mim. Cássio, me ouça, eu te amo muito, mas vou ter que te deixar cedo, tenha consciência disso. Eu não verei você se formar, se casar, me dar netos lindos... nada, eu não verei nada, infelizmente.
    Ela chorou, muito. Parecia que Cássio até podia sentir as gotas caindo do rosto dela e escorrendo até o queixo.
    Ele também chorou, não tinha como segurar. Quando ele viu que a doença de sua mãe chegou a ponto de ter que fazer um tratamento forte ele soube que ela não duraria muito.
    Cássio não aguentou falar mais nada. Parecia que sua voz havia congelado na garganta. Lhe faltou tudo: voz, choro, ação e amor.
    Ele estava em estado de choque. Não sabia o que fazer, como agir, como lidar com aquilo.
    Perdeu a casa, não tinha teto, só a mãe. Um bem tão valioso mas que só duraria mais... um ano? Pensando com certa positividade excessiva.
    Ele se cegou. De algum modo e com alguma razão ele queria se isolar. Não queria ir nem buscar a mãe. Preferia dormir até tudo isso acabar.
    Um vento frio soprou pelo seu braço e a única coisa que ele conseguiu dizer sozinho no quarto foi:
__ Elas me afetaram também. Muito, mãe.
                               
    Após horas preparando poções, Bernardo e Caterina saíram do "depósito" onde Caterina trabalhava e se despediram.
__ Eu vou tomar isso assim que chegar em casa. Valeu, madame Soprano.
__ Tome tudo e depois faça o que eu te falei. Mas não se esqueça: tem que fazer exatamente como eu falei, senão não funciona, irá falhar.
    Caterina chegou em casa exausta, eram quase seis horas e o dia praticamente não acabava nunca.
    Beatrice ao ver a mãe chegar aproveitou para ligar para Samuel e combinarem de ir no beco para ela relaxar um pouco.
    Passar o dia inteiro cuidando do irmão não parecia uma coisa muito legal.
    Após uma hora depois de ligar para Samuel, ele chega de moto lá embaixo e força o motor. Esse era o jeito dele de dizer que chegou.
    Beatrice desceu os três andares correndo. Chegou, deu um beijo na bochecha de Samuel, subiu na garoupa da moto e eles partiram.
    Chegaram no beco de mãos dadas, ela encostando a cabeça em seu ombro, ele cumprimentando os amigos até de repente Beatrice relembrar de Heitor, a levando na sua primeira vez naquele beco...
    Ele nunca deixaria seus pensamentos, seu coração...
    Ela jamais o esqueceria. Seu segundo e intenso amor.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Orgulho de ser filha de mítica

Primeira Temporada - episódio 3

    Era domingo e Beatrice estava acordando era umas duas horas da tarde. A balada de ontem com o Samuel não tinha dado um bom resultado.
    Assim que ela despertou, levantou correndo da cama e foi ver o que o irmão já havia aprontado.
    Felizmente, sua mãe não havia ido trabalhar hoje.
__ Ué, não foi hoje? __ pergunta Bea intrigada. Que droga... não vou aguentar ficar o dia todo na vigia da mamãe, tenho que ligar para o Bernardo ou para o Samuel.
__ Não, hoje não, eu... quero conversar com você.
    Bea arregalou os olhos. Ai vem...
__ Ok, então, mas nada de papinho de céu, inferno, anjos, demônios, e toda a turminha. Você sabe que eu acredito que o céu e o inferno estão na terra.
    Madame Soprano, como gostava de ser chamada a senhora Caterina, saiu da cozinha e seguiu para a sala, onde Beatrice estava. A cozinha era americana, o que as permitiam conversar de um cômodo ao outro.
__ Bea... tem um pouco disso na conversa, mas é mais sobre a sua irmã.
    Ai não... isso Bea não aguentava conversar desde que sua irmã foi embora. Sussurrando e meio que com raiva, Beatrice disse:
__ O que tem ela?
__ Ela? O que tem ela? __ Caterina perguntou com sarcasmo __ Você vai mesmo ir morar com ela?
__ Olha mãe... ela nem terminou os estudos ainda. Eu nem sei... nem sei se ela vai vir mesmo me buscar.
__ Você sabe que ela vai terminar daqui a dois anos. Se ela conseguir um bom estágio ela... ela poderá tirar você de mim antes do tempo.
__ Tempo de que?
    Caterina arregalou os olhos. Ela havia falado demais.
__ De... de nada, Bea. Bom, eu acho que acabamos a nossa conversa pro aqui. Se quiser, saia com o seu namorado ou, sei lá, liga para o Bernardo para conversarem na escadaria do prédio só não demore para voltar para casa.
    Até parecia que a senhora Soprano se preocupava com a hora em que Beatrice chegava em casa.
__ Ok, ok.
    Bea voltou para o seu quarto e ligou para Bernardo.
__ Fala, Bea... O que você quer?
    Ele atendeu rápido, mas com voz de sono. Estranho.
__ Tá dormindo? Melhor, estava dormindo?
__ Não, só... só pensei que não fosse me ligar é que... ah, nada, diz ai o que você quer.
__ Estranho, né, mas tudo bem. Eu só queria conversar, sei lá, soltar as coisas que estão entaladas na minha garganta, sabe. Eu penso às vezes de falar tudo para o Samuel só que ele... ele não me conhece tanto quanto você e a Joana.
    Bea tremia ao falar ou até mesmo lembrar da irmã.
__ O que mais você tem a me dizer, Bea? Eu já... eu já sei tudo sobre você.
__ Eu sei que você sabe... Eu só queria desabafar um pouco.
__ Ok, to indo para ai. Me espera no portão.
    Bea trocou rápido de blusa da vermelho sangue por uma azul marinho e colocou uma saia curta jeans e uma sandália gladiadora preta com spikes.
    Ela esperou um tempo... pensando em muitas coisas para contar a Bernardo. Até mesmo o evento quentinho pré-saído do forno.
    Ele chegou e ela derreteu. Ela ainda não entendia como podia gostar tanto dele, se nem mesmo haviam se beijado.
    Beatrice então começou a filosofar na sua cachola. Ela amava só quem não a queria...
    Ele se sentou na escadaria do lado de Beatrice.
__ Eu preferia você sem esses piercings... __ quase que num sussurro Bernardo a confidenciou um desejo.
__ Você era bem mais bonita e tratada antes deles... __ continuou ele fazendo Beatrice se arrepiar. Ela nunca havia imaginado isso.
    Beatrice então se calou. Começou a pensar e pensar coisas cada vez mais loucas em sua mente. O quanto aquilo era surpreendente, o quanto aquilo era o que ela sempre esperou ouvir. Bernardo, o primeiro amor de sua vida disse que ela era bonita. Mas, para o desgosto de Beatrice,... ela não era mais.
__ Não adianta ficar no silêncio. Eu não sou que nem a sua mãe para saber o que você está pensando e que não quer dizer.
__ Eu não acredito nessas coisas. Você sabe __ Bea bufou e encostou a cabeça no ombro de Bernardo.
__ Mas elas existem, e eu sei que você nunca acreditou, mas você ficou calada e pensativa ai... o que era?
    Nada. Só que eu te amo demais e amei também saber que você me achava bonita.
__ Eu já acreditei sim. Na época em que minha mãe conseguia fazer a minha cabeça. Agora essa época já passou e você sabe muito bem disso.
    Bernardo gelou.
__ Tá, mas você vai tirar os piercings?
    Dessa vez, quem gelou foi Beatrice. Ela colocou alguns daqueles piercings por causa da falta de complacência de Bernardo. Por causa do amor não correspondido. Uns cinco eram culpa dele. O resto culpa do Heitor... Enfim,... e as marcas nos braços? Também era bem dividida entre os dois, mas sua irmã também a fizera deixar algumas por ali.
__ Vou ficar com marcas...
__ Mas as marcas não vão ser tão eternas quanto as que você carrega nos braços.
    Ele levantou um braço de Beatrice e virou o pulso para vê-lo melhor a fazendo ficar nervosa e envergonhada logo o puxando.
__ Viu... e você nem gosta delas. Por que você as faz então? Me diga... eu quero saber.
    Houve um brilho no olhar de Beatrice. Ai estava a complacência que ela sempre esperou de Bernardo. A preocupação.
__ Por sua causa. E por causa da minha irmã. E por causa de tudo que me faz se sentir mal.
    Ela se levantou e subiu os degraus.
__ Até depois, Bê.
    Confiante e decidida, Bea iria partir a procura de outro. Ela era assim. Batava gostar dela ou se preocupar um pouco que ela "fugia", mesmo sabendo que nunca mais amaria outro assim...
    Bernardo ficou a ver navios. Ele... ela estava... Não! Ele não podia estar... Mas seu coração estava confuso, como seus pensamentos.
    Ele queria tocá-la, beijá-la... Não! Não! Não!
    Ele não podia beijá-la... Ele precisava urgentemente conversar com a madame Soprano.
    Ligou para ela. Madame Soprano estava tão ocupada tentando acalmar Tales, o irmão mais novo de Be, que quem acabou atendendo o telefone foi Beatrice. Ele ainda estava lá embaixo, sem rumo, precisando de umas palavras inteligentes.
__ Fala... __ Bea nem sabia quem era do outro lado da linha.
__ É... __ Bernardo tentou fazer uma voz um pouco diferente, para Bea não desconfiar de nada __ a madame Soprano está?
    Ele pode ouvir Beatrice levando o telefone para a mãe, dizendo: Mãe, cliente, deixa o Tales comigo.
    Ela queria mesmo se livrar da vigilância da mãe naquele domingo.
__ Olá, quer um olhar mítico no seu dia?
__ Madame Soprano, sou eu... Bernardo. Precisamos conversar... acho que... estou me apaixonando por Beatrice.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Nome simples para um lugar sensacional

Primeira Temporada - episódio 2

    Era domingo. Cássio acordou devagarinho, olhou em volta e levou um susto. Ele havia dormido nos degraus da igreja que levavam até o altar.
    Olhou o relógio e deu um pulo para seguir em fuga até seu quarto. Eram exatamente cinco e meia e como o padre havia o falado a poucas horas sobre a missa das seis horas da manhã... com certeza começariam a arrumá-la mais ou menos essa hora.
    Perto do corredor, Cássio, enquanto corria distraído, nem percebe a presença do padre Ícaro, um padre conservador e católico fervoroso que passava levando a âmbula nas duas mãos e com a sua túnica quase arrastando no chão.
    Infelizmente, para rejeição de Cássio por toda a igreja, ele pisa na túnica do padre Ícaro, fazendo-o deixar cair toda a hóstia que havia dentro da âmbula.
    Padre Ícaro olha raivosamente para Cássio, percebendo bem nas suas olheiras gigantescas, no seu cabelo bagunçado, nas suas roupas lameadas e no seu rosto infeliz, logo depois olhando de volta para o chão e lamentando sofridamente a perda de todas aquelas hóstias.
__ Esse garoto... não deveria estar aqui.
    Cássio engoliu em seco, e, ainda em pé, começou a lamentar também o ocorrido.
__ Não era o padre Fernando que iria fazer a missa das seis?
    Perguntou Cássio enquanto se abaixava para ajudar a catar todas as hóstias perdidas para depois tacá-las, infelizmente, no lixo.
__ Padre Fernando foi os receber ontem de madrugada, ele está dormindo ainda, farei a missa por ele.
__ Ah, sim... __ responde Cássio levantando a cabeça agilmente e logo depois voltando a juntar as hóstias.
    Chega então uma freira, Sílvia, com a vassoura e a pá.
__ Sílvia, deixe o rapaz cumprir seus deveres e aprender a não correr no corredor e vá buscar mais hóstias... __ sem nem deixar Sílvia sair de lá, padre Ícaro continuou __ Ah, leve também a âmbula e limpe-a.
    Cássio achou de certo modo incorreto, freiras não são escravas, mas ele não podia fazer nada além de seu "dever" de acordo com o padre Ícaro.
    Após juntar todas as hóstias em cima da pá, Cássio pode enfim ver o céu pegar uma cor diferente de azul marinho, passou para um cinza médio, podendo ver também um pátio, pelo feixe de vidro que havia em torno de todo o corredor.
    Ele seguiu em direção a uma porta no meio do corredor e que tinha do lado uma lixeira. Tacou todas as hóstias lá dentro e seguiu pelo corredor até chegar ao seu quarto. Viu sua mãe ainda dormindo e então resolveu tomar banho no banheiro de lá mesmo e depois seguir para ver a missa, afinal, ele havia acordado bem cedo, e... pensando bem... ainda bem que ele havia acordado cedo.
                                       
    Após a missa, Cássio saiu da igreja e resolveu ir ver como era a cidade. Saiu com apenas uns trocados no bolso da bermuda jeans para talvez tomar um café com creme e comer um donuts em qualquer cafeteria.
    Ele não foi muito longe. Acabou parando lá perto e tomando um suco de laranja numa padaria e comendo um sanduíche de ciabatta com queijo e goiabada.
    Andando sem rumo pelas ruas, chegando perto da estrada que o levara para lá, Cássio viu uma espécie de trilha, muito perto de uma porção de cangas esticadas no chão repletas de comidas e de gente em volta.
    Ele resolveu subir a trilha.
    Enquanto subia, ele viu um casalzinho aos beijos no meio da trilha. Ela era loira e ele meio moreno... um loiro acinzentado.
    Chegando no final da trilha, Cássio até se emociona com a vista... como a cidade era linda e perfeita dali de cima.
    Lá embaixo estava escrito que o nome daquele local era A pedra.
    Um local tão lindo, tão agradável, tão aconchegante... Novamente... Cássio acabaria gostando de morar lá...
    Ele sentou na ponta da pedra e se deparou sozinho. Começou a tacar pedrinhas e ouvi-las caindo devagarinho de lá de cima.
    Pensou, pensou e pensou sobre a sua vida e sobre seus colegas que deixou para trás até se pegar lembrando do dia em que contou a seu único melhor amigo que iria se mudar.
                                   
__ Alexandre! __ Cássio gritou e esperou que o amigo o ouvisse do outro lado do pátio.
    A escola estava lotada nesse dia pois todos as salas lancharam juntas.
__ Alexandre! Alexandre! Alexandre!
    Cássio ficou sem ar e se apoiou no ombro de um qualquer que nem ligou. Logo depois que ele recuperou o fôlego saiu novamente em disparada atrás do amigo. Eles se perderam na lanchonete da escola pois Cássio tinha ido antes ao banheiro e ficou mais para trás na fila.
    Ao alcançar Alexandre, Cássio apoiou dessa vez as mãos nos joelhos e esperou que Alexandre virasse para trás.
__ Ah, oi Cássio. Tava me chamando?
    Cássio ficou furioso. Levantou a cabeça e cruzou os braços.
__ Se eu estava te chamando?! Eu estava te berrando, Alex! Você ouviu e nem deu bola, né!!
    Alexandre riu e tentou acalmar o amigo,colocando a mão em seu ombro.
__ Fala ai o que te manda.
    Cássio se aproximou do amigo e também colocou a mão em seu ombro.
__ Eu... eu vou me mudar, cara. Pra bem longe.
    Alexandre arregalou os olhos e tirou a mão do ombro do amigo, decepcionado.
__ Quando? __ foi a única coisa que Alexandre consegui pronunciar naquela hora. O tumulto do recreio pareceu até se silenciar.
__ Sábado, agora.
__ Depois de amanhã?!
__ É...
    Cássio estava até se sentindo mal. Ele não queria se mudar de jeito nenhum!
__ Cara... eu... eu vou sentir saudade...
                                 
    De repente Cássio percebe que está ficando tarde, um pouco depois da hora do almoço, então resolve correr para a igreja, sua mãe estaria possessa.
    Chegando lá, ele percebe que sua mãe está arrumando uma bolsa para sair.
__ Onde você estava, Cássio? __ pergunta Alícia ao se virar e ver o filho. A voz fraca, falhando e a aparência cansada.
__ Mãe, eu... eu fui ver a cidade, conhecê-la melhor...
__ Ah, sim. Querido, estou satisfeita, muito obrigada por querer conhecer a cidade. Eu já chamei um táxi. Eu marquei uma consulta hoje. Eu sei que é domingo, mas ele aceitou me consultar e me dar uns remédios para esse meu cansaço.
__ Claro, mãe, é até bom que ele já queira te consultar. Vou ficar aqui tá bom? Quero conhecer melhor os padres, as freiras,... todo mundo, ok?
    Alícia abraçou forte o filho.
__ Eu te amo, Cassinho.
    Cássio poderia bufar, gritar, chorar, mas não, mesmo odiando o apelido, Cássio amava a mãe, e sabia de sua saúde fraca, o melhor era amá-la enquanto ela ainda estivesse viva.
    Ele a retribuiu o abraço.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Não, Turner, não faça isso comigo

Primeira Temporada - episódio 1

__ Maldito Síndrome de Turner! __ gritava Cássio no seu quarto enquanto arrumava sua mochila e suas malas vorazmente.
__ Meu amor...
    Sua mãe aparece em seu quarto, caída e sem forças direito.
__ Você sabe que eu não queria ter essa doença... já foi um milagre ter você, basta o quanto eu sofri achando que você não ia sobreviver... por favor, pare de reclamar, meu amor. Lá deve ser legal também.
__ Mãe, eu não me importo com o quanto você me quis, eu só... eu só não queria deixar aqui! Tem tantas outras cidades próximas que poderiam ter esse centro de tratamento, mas não! É tão longe, tão longe e tão esquecida que nem de avião nós vamos poder ir!
    Sua mãe sai do quarto e bate a porta com força. Ela não tinha mais papas na língua para continuar gritando com o filho.
__ Deixar tudo... Eu já não tenho quase nada... amigos, avôs, avós, tios, tias... Por quê, senhor? Por quê está fazendo isso comigo?
    Cássio ajoelhou-se no chão em relutância.
__ Poderia ser Milão, Nápoles, Génova, Florença... até Veneza ou Verona, mas não... tinha que ser uma cidade que nem deve ter 10.000 habitantes, que droga! 
    A doença de sua mãe era tudo o que Cássio não queria que ela tivesse. Além dela não ser bonita, por ter o pescoço muito cheio de pele, fazendo-a parecer sem queixo, ela ainda não tinha peitos e era baixa... Com toda certeza que ele a amava, mas... gostaria que ela fosse... de certa forma... normal.
__ Eu não quero sair de Roma!! __ exclamou ele em alto e bom som para sua mãe ouvir.
    Ele sabia que era pecado desrespeitar aos pais, mas naquele momento de tanta raiva, ele não aguentou.
    Quando acabou de arrumar a mala, Cássio deitou-se na cama, esperando um milagre.
    Ele rezou quantos pai nossos ele pode e quantas ave marias conseguiu até sua mãe bater de novo na sua porta.
__ Filho, querido. Os rapazes da mudança chegaram. Já colocou as coisas na caixa?
    Ele havia esquecido de fazer isso.
    Saiu correndo pelo quarto pegando tudo e tacando nas caixas vazias que sua mãe havia deixado ali desde ontem de noite. Aproveitou para passar na porta e trancá-la para proibir a entrada de sua mãe.
__ Mãe, deixa as minhas coisas por último... estou, é... trocando de roupa __ mentiu.
    Enquanto Cássio fazia tudo às pressas, se pegou pensando... "Ué, por que eu estou arrumando tudo se antes eu não queria viajar? Antes não, eu ainda não quero."
    Mas quando viu tudo já estava nas caixas.
    Os móveis continuariam ali, aliás, eles eram do apartamento, foram alugados junto com ele.
__ Anda, filho...
    Cássio abriu a porta numa euforia só. Correu muito ao arrumar as coisas dentro das caixas.
__ Muito bem, filho. __ disse a senhora Brumma ao olhar para dentro do quarto e só ver as caixas lotadas no chão e os móveis limpos, sem nada.
    E eles seguiram até a rua, após descer cinco andares com a mochila pesada no colo, Cássio ficou cansado.
    A senhora Brumma pegou a chave do bolso e deu para o senhor Filgari, que levaria eles até a cidade nova, pois a senhora Brumma não tinha forças para dirigir tantas horas.
    O senhor Filgari era um dos vizinhos deles, que morava no sétimo andar.
__ Então, vocês estão prontos?
__ Sim senhor Filgari, e... muito obrigada mesmo.
__ É, valeu senhor Filgari __ diz Cássio mesmo não muito agradecido por ser forçado a viajar.
    Eles seguiram viajem conversando e ouvindo rádio por horas e horas.
__ É... qual o nome da sua doença mesmo, senhora Brumma?
__ Síndrome de Turner.
   Maldito Síndrome de Turner, pensou Cássio.
__ Mas que doença mais esquisita essa, hein, Alícia.
__ Sim, Luciano, eu sei o quanto eu sofri preconceito por causa dela. Não conseguiam acreditar que eu pudesse ter o Cassinho...
    Luciano ri e olha para Cássio através do retrovisor. Ele estava de braços cruzados, agachado e com a cara grudada na janela.
    Cássio odiava ser chamado de Cassinho.
    Luciano Filgari deveria ter uns trinta e seis anos e sempre estava dando em cima da mãe de Cássio. Ele odiava isso e se sentia mal no meio dos dois.
                                     
    Finalmente, após horas e horas na estrada, eles chegam na cidade umas duas e pouco da madrugada. Assim que Cássio sai do carro, passa uns motoqueiros estranhos perto da possa de lama e respingam tudo na roupa dele.
__ Malditos! __ diz Cássio sem conseguir se controlar, logo depois lembrando de se perdoar __ Desculpa senhor, eu não fiz por mal, mas acredito que aqueles desalmados fizeram isso por mal!
    Entrando na igreja, a qual eles ficariam "hospedados" de graça enquanto Alícia tratava sua doença, vem um padre recebê-los.
__ Olá, meu nome é Fernando e eu sou um dos padres dessa igreja. Sejam bem-vindos e espero que a instalação de vocês seja rápida, pois eu tenho que dormir cedo, amanhã eu faço a missa das seis.
__ Oh, sim, claro, mil perdões __ diz a senhora Brumma.
    O senhor Filgari e Cássio começam a tirar as caixas do caminhão de mudanças que os seguiram a viagem toda. Os homens do caminhão também retiraram algumas caixas. Como não tinham móveis nenhum com eles, esse processo demorou pouco.
    Cássio e Luciano segurando as caixas levaram tudo para dentro da igreja, para o quartinho pequeno que dividiriam.
__ Nossa... que...
    Cássio nem deixou Luciano terminar.
__ Pequeno, não?
    Luciano riu e assentiu com a cabeça, logo depois mudando de cara e encarando seriamente Cássio, segurando em seu ombro.
__ Olha... tome conta da sua mãe, ok? Ela deixou a família, os amigos, o marido só por você. Por que ninguém acreditava que você pudesse nascer, e pior, acreditavam que você pudesse matar a sua mãe.
    Cássio se sentiu comovido. Era realmente verdade que sua mãe largou tudo por ele e que a sua doença só piorou por causa dele. Ele deixou uma lágrima cair mais logo limpou, sem deixar Fernando perceber.
__ Eu vou tomar conta dela. Pode ter certeza, Luciano.
    Cássio não conseguia tratá-lo como um tio ou apenas chamá-lo de "senhor". Ele era muito novo para receber esse tipo de tratamento.
    Alícia entrou no quarto e vendo Luciano e Cássio conversando, resolveu ouvir, mas ela chegou tarde, a conversa dos dois já havia terminado.
__ Tchau, Alícia __ disse Luciano a abraçando.
__ Adeus... Luciano__ Alícia retribui o abraço e, os dois, comovidos com a separação, choram.
    Cássio entra num colapso nervoso, ele odiava Luciano dando em cima da sua mãe, mas desta vez ele deixou, afinal, ele não poderia protegê-la para sempre.
    Luciano Filgari foi embora e Alícia começou a abrir as caixas e tirar uns lençóis de dentro.
__ Vamos, Cássio, me ajude a tirar esses lençóis daqui.
    Cássio se abaixou ao lado da mãe e começou a tirar uns lençóis.
__ Está bom, agora escolha uma cama e comece a forrá-la com os seus lençóis.
__ Ok... __ murmurou Cássio.
                                     
    Eles arrumaram as camas, deitaram e dormiram com as roupas que viajaram. Até mesmo Cássio, que estava com as roupas repletas de respingos de lama.
    Cássio demorou a dormir e então resolveu ir até a igreja, ver como ela era.
    Chegando lá, ele se deparou com uma igreja bem grande, em relação ao que ele via do lado de fora... parecia tão pequena... tão diferente dá de Roma...
    Os tons diferentes de lilás e azul bebê ficaram lindo na estrutura da igreja. Ele poderia acabar gostando de morar lá...